Diante da tela do celular, uma mulher de 82 anos assiste a um homem de jaleco branco que fala com segurança sobre remédios e curas. A voz é firme e o conselho parece razoável. "Não percebi que era inteligência artificial. Achei que fosse um médico de verdade, até porque o que ele falava parecia plausível", contou ela à BBC News Brasil. O doutor da tela, porém, não existe: o rosto, a voz e o jaleco foram fabricados por inteligência artificial.
É contra esse tipo de cena que o governo federal decidiu agir. A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou o YouTube na sexta-feira (4) para que retire do ar ou sinalize vídeos que usam inteligência artificial para criar falsos médicos e outros profissionais de saúde e divulgar informações enganosas, como promessas de cura e tratamentos sem comprovação científica. A plataforma tem 72 horas para tornar indisponíveis os conteúdos identificados pelo Ministério da Saúde ou, dependendo do caso, adotar rótulos e avisos que deixem clara a natureza artificial dos personagens. A notificação se baseia em uma análise do programa Saúde com Ciência, do Ministério da Saúde, que identificou 97 perfis com esse tipo de conteúdo publicados entre 1º de janeiro e 10 de julho. As informações também foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina (CFM).
Segundo o Ministério da Saúde, os vídeos apresentam avatares de aparência humana que se apresentam como médicos ou especialistas, recebem qualificações profissionais fictícias e adotam linguagem alarmista para dar credibilidade ao que dizem. Parte dos perfis tem como alvo especialmente a população idosa e usa a suposta autoridade dos personagens para vender produtos, e-books e serviços pagos. A pasta alerta que esse conteúdo pode levar à automedicação, ao uso de terapias sem eficácia comprovada e ao adiamento ou abandono de tratamentos. O YouTube também foi instado a analisar os demais canais e vídeos citados no relatório segundo suas regras sobre desinformação em saúde e conteúdo sintético.
Uma indústria em escala
A notificação chega dois meses depois de a BBC News Brasil revelar uma indústria de canais dedicados a esses personagens. A investigação de julho mapeou 29 canais em português dedicados a falsos médicos de IA que somavam mais de 70 milhões de visualizações, com base em dados da organização sem fins lucrativos CTRL+Z, e calculou uma produção de cerca de dez vídeos novos por dia. Ao analisar aproximadamente 27 mil comentários, a reportagem encontrou relatos de idosos que colocaram as orientações em prática, entre eles pessoas que substituíram medicamentos prescritos por alimentos, plantas e tratamentos caseiros. Procurado na época, o Google removeu alguns dos maiores canais do levantamento, com cerca de 41 milhões de visualizações somadas, e afirmou que todo conteúdo gerado por IA deve seguir diretrizes que proíbem desinformação médica capaz de causar danos graves no mundo real. Outros vídeos permaneceram disponíveis, e a BBC diz aguardar retorno da empresa sobre a nova notificação.
Quando o rosto é o de um médico real
Uma segunda reportagem da BBC mostrou que ao menos cinco canais usaram, sem autorização, o rosto e a identidade do otorrinolaringologista Hélio Brasileiro para recomendar supostos tratamentos naturais e fazer afirmações alarmantes sobre saúde. O médico descobriu os clones ao ver a própria imagem na primeira reportagem, denunciou os vídeos ao YouTube e registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo. O caso foi encaminhado ao 3º Distrito Policial de Sorocaba, que investiga, entre outras possíveis infrações, falsidade ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação. Em despacho, a delegada Alessandra Silveira afirmou que a disseminação de desinformação médica por meio de simulação biométrica exigia atuação imediata da polícia e poderia gerar risco de envenenamento ou automedicação.
A notificação ao YouTube faz parte de uma força-tarefa que reúne o Ministério da Saúde, a AGU e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. O ministério recomenda que a população busque orientações sobre saúde em fontes oficiais e confiáveis e denuncie conteúdos que possam colocar outras pessoas em risco. Para a mulher de 82 anos que acreditou no doutor plausível da tela, resta agora o aviso que deveria ter chegado antes: aquele médico nunca existiu.