As dívidas em atraso do agronegócio brasileiro somavam R$ 48 bilhões em junho, contra R$ 2 bilhões em junho de 2021, alta de 2.300%, segundo reportagem do UOL publicada neste domingo (13). O calote mudou o comportamento dos bancos, que passaram a restringir o crédito para a nova safra e a assumir propriedades rurais de produtores que não conseguiram pagar os financiamentos.
Um caso citado pelo UOL é a Fazenda Santo Antônio, em Peixe, no sul do Tocantins, avaliada em R$ 9,6 milhões e hoje pertencente a um banco. O antigo dono, um pecuarista, perdeu a propriedade depois de não conseguir quitar os empréstimos.
Crédito para a safra encolhe
A restrição aparece nos números do Banco Central compilados pela Farsul, federação dos produtores rurais do Rio Grande do Sul, em nota técnica. A área produtiva financiada pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões de hectares, em julho de 2025, para 25,4 milhões em julho deste ano, recuo de quase 26% em 12 meses. No Rio Grande do Sul, a queda foi de 29,3%. O crédito rural liberado, sem contar títulos privados, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões, e o número de contratos caiu 10,3%, para 777,8 mil.
Em julho, 23,5% da carteira ativa de crédito rural do sistema financeiro estava classificada como problemática: R$ 207,5 bilhões em saldos inadimplentes, em atraso, renegociados ou prorrogados. A Farsul atribui parte da maior seletividade dos bancos à resolução 4.966 do CMN, regra de provisionamento em vigor desde janeiro, que obriga as instituições a reconhecer perdas mais cedo diante de carteiras em deterioração.
Risco para os preços dos alimentos
Para a Farsul, os efeitos do crédito mais escasso devem aparecer com defasagem justamente na safra 2026/27, cujo plantio começa agora. Os indicadores ainda positivos, segundo a entidade, refletem lavouras financiadas antes do agravamento da crise.
Os efeitos de um crédito mais escasso hoje tendem a aparecer, com defasagem, na safra 2026/27, no PIB, no saldo comercial, no câmbio e nos preços de alimentos, justamente quando a inflação começa a dar sinais de acomodação.
Para o produtor, resta recorrer a instrumentos privados, como as CPRs, cujo estoque somava R$ 576,4 bilhões em junho, alta de 12% em 12 meses, e os Fiagros, que cresceram 81% em dois anos. Segundo a Farsul, essas fontes amortecem a lacuna deixada pelos bancos, mas o acesso segue restrito para pequenos e médios produtores. Para o consumidor, o risco está na oferta: se menos crédito virar menos área plantada e menor produtividade, o alívio atual nos preços dos alimentos pode se reverter, com peso maior no orçamento das famílias de menor renda.