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Eletricista diz que só 'emprestou os dados' para ser tesoureiro da ONG de Karina da Gama

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CFPor Camila Ferreira•18 de setembro de 2026•Fontes: TVT News, G1

A casa fica nos fundos de um terreno na Vila Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, e faz divisa com o imóvel onde vive a família de Karina da Gama. Ali mora Vanderlei Magalhães Natividade, eletricista industrial que se apresenta nas redes sociais como prestador de reparos em empresas e apartamentos. No dia 10 de setembro, policiais federais chegaram com um mandado de busca autorizado pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). Nos papéis da entidade investigada, o nome dele aparece como tesoureiro de uma organização que movimentou cerca de R$ 83 milhões em um único ano.

Nesta segunda-feira (14), os advogados Miguel Kupermann e Matheus Yasbeck Montenegro disseram que ele "nunca exerceu qualquer atividade de fato" no Instituto Conhecer Brasil (ICB), a organização de Karina da Gama. Segundo a nota da defesa, há 12 anos Vanderlei forneceu seus dados, a pedido da prima, para auxiliar na criação do instituto, ocasião em que foi registrado formalmente como tesoureiro estatutário. Segundo a TVT News, ele chegou a se apresentar como parente de consideração da empresária. Desde então, sustentam os advogados, ele nada teria feito na entidade.

"Não obstante essa designação no estatuto, Vanderlei nunca exerceu qualquer atividade de fato no instituto, nunca movimentou contas da entidade e nunca recebeu qualquer valor em detrimento da sua suposta posição executiva", afirma a nota.

O que aponta a investigação

A versão contrasta com o que registrou a Polícia Federal. Segundo o g1, a PF aponta Natividade como a pessoa cuja assinatura aparece em documentos ligados a movimentações que somaram cerca de R$ 83 milhões do ICB entre setembro de 2023 e agosto de 2024. Na decisão que autorizou a operação, citada pela TVT News, Dino escreveu que o eletricista tinha acesso a todas as contas da entidade e realizava operações financeiras de alto valor. Com a ação, ele teve o passaporte recolhido e está proibido de deixar o país sem autorização do STF. Foi a segunda busca no endereço: em 1º de junho, a Polícia Civil de São Paulo já havia cumprido mandado ali. Procurado pelo g1, o ICB não explicou por que Vanderlei ainda consta como tesoureiro e não respondeu até a publicação desta reportagem.

O instituto mantém, entre outros contratos, um acordo anual de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para serviços de pontos de Wi-Fi na periferia da capital, segundo a TVT News, que também informa que a Polícia Civil suspeita de desvio de verba do programa WiFi Livre SP para a produção do filme. A Operação Make Up, deflagrada em 10 de setembro, cumpriu 49 mandados de busca e apreensão e submeteu 29 pessoas a medidas cautelares. Entre elas estão Karina da Gama, presidente da entidade, e o deputado federal Mário Frias (PL-SP).

O filme e a produtora

No centro do caso está Dark Horse, longa produzido por Karina da Gama sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação no STF apura suspeitas de uso de recursos públicos no financiamento da obra e nas movimentações do instituto. Segundo a TVT News, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato à Presidência neste ano, também é investigado pela PF por suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção ligadas ao financiamento do filme. Após a operação, a defesa de Karina apresentou uma reclamação constitucional ao STF. O advogado Ricardo Sayeg afirmou que a medida não discute o mérito da apuração e busca garantir o cumprimento de decisões da Presidência da corte e a competência do juiz natural. Segundo os advogados, a produtora colaborava espontaneamente e entregou à PF, na sexta-feira (11), mais de 20 mil páginas de documentos.

Na nota desta segunda, os advogados dizem que Vanderlei é pequeno empresário, trabalha como eletricista nas regiões Norte e Oeste de São Paulo e não tem qualquer envolvimento com política, produção cultural ou com "Dark Horse". De volta à Vila Brasilândia, a casa simples nos fundos do terreno segue no lugar. O nome do dono agora circula em autos do STF, ao lado de uma pergunta que a investigação tenta responder: como o eletricista que instala câmeras e alarmes veio a assinar, no papel, documentos ligados à movimentação de R$ 83 milhões.

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