A manhã desta quinta-feira (10) começou cedo para agentes da Polícia Federal e servidores da Controladoria-Geral da União. Eles se espalharam por 49 endereços em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal, com mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. A operação, batizada de Make Up, alcança 29 pessoas suspeitas de integrar um esquema de desvio de recursos de emendas parlamentares ligadas a "Dark Horse", o filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro estrelado pelo ator americano Jim Caviezel. O número de alvos foi informado pela coluna de Mônica Bergamo, no jornal Folha de S.Paulo.
Em nota, a PF diz que a operação apura o suposto desvio de recursos públicos de emendas parlamentares repassadas, por meio de termo de fomento, a uma organização da sociedade civil. Segundo a corporação, os investigadores apontam uma organização criminosa formada por agentes públicos e privados, suspeita de direcionar os valores a empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação da efetiva prestação dos serviços contratados. Levantamentos financeiros citados pela polícia identificaram movimentação na ordem de centenas de milhões de reais entre as empresas do esquema, e as tentativas de dissimular os desvios teriam se estendido até julho deste ano. Os detalhes foram divulgados pela BBC News Brasil.
Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo de "Dark Horse", e a produtora do longa, Karina Ferreira da Gama. Segundo o g1, o celular de Frias foi apreendido durante as buscas, e dois dos endereços visados pertencem a ONGs ligadas a Karina, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). A empresa que produziu o filme, a Go Up, não está na mira dos mandados. Entre os crimes investigados estão peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios. A TV Globo informa que procurou Frias e a defesa de Karina e não obteve resposta.
O g1 apurou que a operação busca esclarecer o repasse de R$ 2 milhões em dinheiro público destinado por Frias a organizações ligadas à produtora do filme. A relação entre os dois é anterior a "Dark Horse": em 2022, a empresa de Karina, a GO7 Assessoria, Produção e Marketing Cultural, recebeu R$ 54 mil para produzir a campanha eleitoral do então candidato. No ano seguinte, já deputado, Frias destinou R$ 2,5 milhões em emendas de sua autoria ao ICB, para aplicação em projetos sociais no interior de São Paulo.
Do galã da televisão ao Supremo
Antes da política, Frias, de 54 anos, nascido no Rio de Janeiro, fez carreira como galã da TV Globo no fim dos anos 1990. Protagonizou a sexta temporada de "Malhação", em 1999, em par romântico com Priscila Fantin, e atuou em novelas como "As Filhas da Mãe", "O Beijo do Vampiro" e "Senhora do Destino". Passou ainda por Record e Band e apresentou o programa "O Último Passageiro", na RedeTV!. Em junho de 2020, assumiu a Secretaria Especial da Cultura no governo Bolsonaro, onde permaneceu até 2022, ano em que se elegeu deputado federal por São Paulo com 122.564 votos.
As suspeitas sobre o financiamento do filme ganharam força em maio, quando o site The Intercept Brasil revelou mensagens e um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, cobrava dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master e preso em Brasília, para a produção sobre o pai. Segundo apurações citadas pelo g1, Vorcaro repassou cerca de R$ 61 milhões ao projeto antes de ser preso, com envio a um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. Frias negou irregularidades, chegou a dizer que a produção não recebeu "um único centavo" de Vorcaro e depois recuou, afirmando que banqueiro e banco não eram investidores diretos, embora houvesse relação jurídica com a empresa Entre Investimentos. Em manifestação ao STF, classificou a suspeita de desvio como "absolutamente falsa, desprovida de qualquer lastro probatório e difamatória".
Dois inquéritos, um filme
A apuração que resultou na ação desta quinta começou após pedido da deputada Tabata Amaral (PSB-SP). Em 21 de março, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou que Frias se manifestasse em cinco dias; oficiais de justiça tentaram três vezes localizá-lo no gabinete parlamentar, sem sucesso, conforme registro de 14 de abril. No dia seguinte, Dino abriu apuração preliminar sobre emendas de deputados do PL destinadas a ONGs ligadas à produtora. Segundo a BBC News Brasil, são dois os inquéritos do STF sobre "Dark Horse": além do de Dino, que apura emendas e deu origem à operação, há outro, sob relatoria do ministro André Mendonça, que examina os repasses de Vorcaro feitos a pedido de Flávio Bolsonaro. A ação desta quinta não tem relação com esse segundo caso.
Ao fim da manhã, os agentes recolhiam documentos e equipamentos dos endereços revistados, e o filme que atravessa os dois inquéritos seguia com o título intacto. "Dark Horse" é a expressão em inglês para azarão, aquele que desponta contra todas as previsões. Nesta quinta, quem tentava antecipar o desfecho eram os investigadores, no rastro do caminho percorrido por verbas públicas até a produtora de uma cinebiografia presidencial.