Em Brasília, na noite de quinta-feira (10), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo de um laudo da Polícia Federal sobre o caso do Banco Master. Entre as páginas que saíram da reserva está a conclusão de que ex-dirigentes do BRB, banco controlado pelo governo do Distrito Federal, praticaram gestão fraudulenta na compra de carteiras de crédito que somaram R$ 17,5 bilhões do Master, instituição liquidada pelo Banco Central.
Segundo o G1, que reportou o documento, a PF analisou operações que somam R$ 47,8 bilhões, mas concentrou a conclusão de fraude em 25 aquisições de carteiras aprovadas pela diretoria colegiada do BRB. Os peritos afirmam que o banco dispunha de "sinais prudenciais, financeiros e reputacionais relevantes sobre o Banco Master, formalmente incorporados ao seu ambiente informacional, mas não demonstrou sua consideração no processo decisório".
"Conclui-se, portanto, que o acervo permite caracterizar, sob a perspectiva técnico-pericial, a prática de gestão fraudulenta no processo de aquisição de carteiras do Banco Master, materializada pela manipulação da sequência de governança, pela formalização retrospectiva de controles, pela burla material ao regime de alçadas e pela continuidade objetiva das operações apesar de alertas prudenciais e fragilidades concretamente identificadas", diz o relatório.
Pagamentos antes das análises
A perícia reconstituiu o rito das compras. Das 84 aquisições de carteiras de crédito para pessoas físicas examinadas, que somaram R$ 17,58 bilhões, em 22 operações, de R$ 7,63 bilhões (43,41% do total desembolsado), ao menos uma das avaliações técnicas obrigatórias só foi concluída depois do pagamento. O caminho previsto era o contrário: as áreas responsáveis por risco, preço e documentação deveriam examinar as carteiras antes de liberar o dinheiro. Os peritos apontam ainda que as operações foram mantidas sucessivamente no limite de R$ 750 milhões para escapar da análise agregada pelo conselho de administração, e que o BRB concentrou parcela relevante da exposição em uma única contraparte, o Master, elevando o risco institucional.
Os alertas circulavam antes de as compras ganharem escala. Em outubro de 2023, a Fitch Ratings melhorou a nota do Master, mas destacou a volatilidade dos resultados, a complexidade do modelo de negócios e a exposição a ativos de baixa liquidez. Em 17 de julho de 2024, a diretoria do BRB autorizou o gasto de até R$ 750 milhões em carteiras, decisão que abriu a série de aquisições. Pareceres internos de setembro e dezembro daquele ano registraram ativos do Master 83,5% maiores em 12 meses, em R$ 50,9 bilhões, carteira de crédito 81,6% acima, em R$ 21 bilhões, e reservas para calotes 82,9% maiores, além de Índice de Basileia classificado como "muito baixo" e caixa inferior a 10% dos depósitos. Um relatório da RISKBank/Eleven, de novembro de 2024, calculava o crédito do Master em 7,4 vezes o patrimônio líquido do banco. Sobre esse conjunto de dados, os peritos escreveram: "A resposta é afirmativa quanto à existência e à circulação das informações de risco, mas negativa quanto à sua adequada conversão em diligência e em condicionamento efetivo das operações". Um grupo de trabalho criado pelo próprio BRB identificou fragilidades de lastro, documentação, averbações, repasses e cadeia de originação dos créditos adquiridos, e a diretoria colegiada manteve a estratégia mesmo depois desses relatórios.
Ex-dirigentes apontados no laudo
A PF vinculou às aprovações seis ex-integrantes da diretoria colegiada: o presidente Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa; a diretora executiva de Gestão de Pessoas, Cristiane Maria Lima Bukowitz; o diretor executivo de Finanças e Controladoria, Dario Oswaldo Garcia Junior; a diretora executiva de Controle e Riscos, Luana de Andrade Ribeiro; o diretor executivo de Atacado e Governo, Diogo Ilário de Araújo Oliveira; e o diretor executivo de Tecnologia, José Maria Correa Dias Junior. Segundo os peritos, os dirigentes presentes ficaram vinculados documentalmente às decisões aprovadas por unanimidade, em deliberações sobre a continuidade das operações, novas aquisições, flexibilização de alertas de risco e complementação posterior de documentos. O diretor jurídico, Jacques Mauricio Ferreira Veloso de Melo, não foi vinculado porque não tinha direito a voto ou estava ausente nas deliberações, de acordo com as atas analisadas.
O laudo é uma peça técnica de investigações que correm no STF sob responsabilidade de Mendonça, que responde pelas principais apurações ligadas ao Master, e não configura condenação. A crise do BRB já entrou na campanha ao Senado pelo Distrito Federal, com candidatos cobrados a se posicionar, segundo o G1. Na mesma cidade onde fotógrafos registraram a fachada do BRB em 18 de novembro de 2025, quando a crise do Master veio a público, a leitura da noite de quinta devolveu ao público o que a PF diz ter encontrado nos bastidores das compras: pagamentos que antecederam as análises, controles formalizados depois dos fatos e alertas internos que nunca mudaram o rumo das decisões.