Na tela, o ator norte-americano Jim Caviezel interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro em "Dark Horse", cinebiografia produzida pela Go Up Entertainment. Fora de cena, segundo a Polícia Federal, o dinheiro que financiaria o filme percorreu um caminho incomum: saiu do círculo do dono do Banco Master, passou por uma empresa brasileira hoje em liquidação extrajudicial e por um fundo sediado no Texas antes de voltar, em parcelas, à produtora.
Foi por esse caminho que a Procuradoria-Geral da República (PGR) chegou a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, dono da Entre Investimentos e Participações. Nesta semana, a PGR encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a proposta de delação premiada do empresário, apontado pelos investigadores como intermediário dos repasses destinados à produção. O documento está no gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso, e ainda precisa ser homologado; o ministro não tem prazo para decidir. A informação foi divulgada pelo g1, pela Folha de S.Paulo e pela CNN Brasil e, segundo a Folha, revelada primeiro pelo jornal O Globo.
Quem é Mineiro
Segundo o g1, a empresa de Freixo Júnior teria servido de intermediária para repassar valores destinados ao filme, e caberia a ele, entre suas atribuições, a busca de moeda para viabilizar pagamentos em dinheiro vivo. Para a Folha, que acompanha o inquérito da PF, a Entre funcionava como um braço operacional do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ajudando no repasse de recursos definidos por ele. Próximo de Vorcaro, Mineiro foi alvo de busca e apreensão em janeiro, na segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura fraudes no Master. A Entre integra o grupo Entrepay, colocado em liquidação extrajudicial em março pelo Banco Central.
O caminho do dinheiro
Os relatórios de inteligência financeira do Coaf, citados pelo g1, apontam que a Entre recebeu R$ 159,2 milhões de fundos investigados pela PF no caso Master: a maior parte, R$ 139,2 milhões, veio da Sefer Investimentos, e outros R$ 20 milhões, do fundo Gold Style, da Reag, gestora que movimentou quase R$ 1 bilhão de empresas apontadas pela PF no esquema de lavagem do PCC. Quanto desse total chegou ao filme ainda não se sabe. O acordo de financiamento previa R$ 124 milhões, dos quais R$ 61 milhões já foram pagos por Vorcaro em seis repasses noticiados em maio pelo The Intercept Brasil, dois de US$ 2 milhões e quatro de US$ 1,6 milhão. Nesta semana, a imprensa revelou um repasse adicional de US$ 1,6 milhão em setembro de 2025, dias depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato à Presidência, cobrar parcelas atrasadas.
Do Brasil, os recursos iam ao Havengate Development Fund, no Texas, que administrava o dinheiro e fazia os repasses à Go Up Entertainment. Entre os administradores do fundo está Paulo Calixto, advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Segundo a CNN Brasil, a colaboração de Mineiro é a primeira envolvendo o caso Dark Horse e a segunda ligada à fraude do Master, depois da de João Carlos Mansur, dono da Reag, assinada no mesmo dia e também enviada a Mendonça. As investigações apuram se houve irregularidades no financiamento e se todo o dinheiro de Vorcaro chegou de fato à produção. Para a Folha e a CNN, as autoridades suspeitam que parte possa ter sido destinada a Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado e nega ter recebido repasses.
As parcelas do filme foram negociadas por Flávio Bolsonaro, segundo a CNN Brasil. Enquanto o relator avalia se homologa as duas colaborações, "Dark Horse" segue no centro de um caso que atravessa a campanha presidencial. Na tela, Caviezel encarna o ex-presidente; nos autos que chegam ao Supremo, o que se investiga é quem pagou, e como, a conta desse retrato.