Um comprovante de pagamento é um documento discreto: um valor, uma data, duas pontas. Entre os papéis que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou do sigilo na sexta-feira (11), há uma fileira deles com as mesmas duas pontas se repetindo. De um lado, a Go Up Entertainment, produtora de "Dark Horse", cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro cujo título, em inglês, designa o azarão de uma disputa. Do outro, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do filme. No meio, segundo apurou o g1, ao menos quatro faturas de cartão de crédito do parlamentar pagas pela empresa entre agosto e novembro de 2025, com valores que variam de R$ 32,6 mil a R$ 36,8 mil.
Os registros financeiros da produtora, liberados com a quebra de sigilo das investigações do caso "Dark Horse", detalham os pagamentos:
- fatura quitada em 22 de agosto de 2025: R$ 32.604,39;
- fatura quitada em 25 de setembro de 2025: R$ 34.164,08;
- fatura quitada em 21 de outubro de 2025: R$ 33.242,21;
- fatura quitada em 19 de novembro de 2025: R$ 36.857,35.
Somadas, as quatro faturas chegam a R$ 136.868,03, valor quitado pela Go Up enquanto o filme sobre Bolsonaro era produzido. A reportagem do g1 não detalha o que teria sido gasto no cartão. A revelação chega dois dias depois da Operação Make Up: na quinta-feira (10), a Polícia Federal cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará e no Distrito Federal. Os alvos incluíram Frias e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up e de duas entidades de projetos sociais, o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). Segundo a PF, investiga-se um suposto esquema de desvio de recursos públicos de emendas parlamentares, com movimentação de centenas de milhões de reais entre empresas ligadas ao grupo. Estão em apuração os crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Uma estrutura "sofisticada", na letra do STF
"Os elementos já produzidos revelam a existência de sofisticada estrutura financeira e operacional destinada à circulação de recursos entre entidades, empresas e pessoas físicas vinculadas ao núcleo investigado."
A frase é do ministro Flávio Dino, do STF, na decisão que autorizou a operação. O texto cita ainda empresas sediadas no exterior, como a Go Up Entertainment LLC, e auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) que identificaram problemas desde a escolha do ICB para receber os recursos até a execução final dos projetos. Segundo a BBC News Brasil, Frias é acusado de ter repassado R$ 2 milhões a Gama. Dino também decretou medidas cautelares contra o deputado e os demais investigados: proibição de viajar ao exterior e de manter contato entre si, além do recolhimento dos passaportes.
O filme atravessa duas frentes no STF. Uma, com Dino, concentra-se no possível uso irregular de emendas e dinheiro público que chegou a entidades e empresas ligadas à produtora. A outra, relatada por Mendonça, apura os repasses do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master e preso em Brasília, entre eles um aporte de R$ 61 milhões ao filme que, segundo a Agência Brasil, teria sido feito a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. Foi o site The Intercept que, em maio, revelou os áudios do pedido, gravados em novembro de 2025. O senador nega ter combinado vantagem indevida e disse, após a operação, que ali foi "tudo redondinho, investimento privado num filme privado".
"Cortina de fumaça"
Frias também respondeu, em vídeo publicado nas redes sociais. Chamou a operação de "cortina de fumaça" em período eleitoral, disse que a emenda investigada foi destinada a um projeto esportivo e de letramento digital para crianças e que tem documentos e notas para comprovar a lisura. "Levaram celular, documentos, computador. Ninguém foi preso. É claro, porque não existe mandado de prisão contra mim nem contra ninguém", afirmou. Em maio, ele já chamava de "absolutamente falsa" a tese de que teria destinado emendas ao filme; a assessoria do deputado não respondeu ao g1 até a última atualização desta reportagem. "Dark Horse" foi rodado em inglês, com o ator Jim Caviezel no papel de Bolsonaro, segundo a BBC News Brasil. E, nos autos que Mendonça abriu ao público, os comprovantes que abriram esta história seguem lá: quatro faturas, um cartão e, em todas elas, a mesma produtora pagando a conta.