40% maior: é a inadimplência registrada entre os associados do sistema Sicredi que apostaram em bets durante o ano de 2025, na comparação com os associados que não apostaram. Para o bolso, isso significa que quem aposta online fica mais vezes sem dinheiro na hora de pagar a parcela do carro, a conta de luz ou o cartão de crédito. O levantamento é da própria instituição financeira e foi divulgado no domingo (20) pelo jornal Folha de S.Paulo.
O Sicredi, um dos maiores sistemas de banca cooperativa do país, reúne mais de 90 cooperativas de crédito, com 10,5 milhões de associados em todos os estados, mais gente que a população de Portugal. O estudo olhou para 1,3 milhão de associados que apostaram no ano passado, um contingente comparável ao da população de Porto Alegre. O critério: pessoas físicas com operações de crédito vigentes em julho de 2026, com verificação de quem havia feito apostas online entre janeiro e dezembro de 2025.
Mais frequência, mais atraso
A pesquisa identificou uma correlação entre a inadimplência e a frequência e o montante das apostas: quanto mais vezes e quanto maior o valor apostado, maior o atraso nos pagamentos. Entre os próprios apostadores, os que jogam com mais frequência têm inadimplência 40% maior do que os que apostam apenas ocasionalmente. "Foi uma surpresa [negativa]. Nossos achados aqui em relação a esse projeto são importantíssimos", disse o diretor-presidente do banco cooperativo, César Gioda Bochi, à Folha.
Entenda: inadimplência é o nome técnico para contas vencidas, em geral após 30 dias de atraso, como uma parcela de empréstimo ou a fatura do cartão. O nome do devedor costuma ir para os registros de proteção ao crédito, o famoso "nome sujo", o que encarece ou até bloqueia um novo crédito. O levantamento do Sicredi mostra uma correlação estatística entre apostar e atrasar, não uma causalidade comprovada.
O número é o dobro do encontrado no estudo do Insper e da empresa de pagamentos Stone, divulgado no início de setembro, segundo o qual as pessoas com pagamentos em atraso são, em média, 20% mais frequentes entre os apostadores; no cartão de crédito, o atraso chega a quase 40%. Segundo esse trabalho, cerca de 25 milhões de pessoas apostaram em plataformas reguladas em 2025, mais que a população do estado do Rio de Janeiro. "O que o estudo confirma é que as bets têm provocado um efeito deletério sobre o endividamento", disse o economista da StoneCo Rômullo Carvalho, citado pela CNN Brasil.
"O que está disponível para pagar as parcelas de crédito fica menor e leva a uma maior inadimplência. Então é algo relevante no processo de recuperação econômica", diz Bochi.
Segundo o executivo, 50% da renda anual das famílias já está comprometida com dívidas, o equivalente a seis meses de trabalho por ano só para cobrir parcelas. A inadimplência maior entre apostadores retira capacidade de pagamento e dificulta a recuperação econômica. "Não é somente na pessoa física urbana, mas também no contexto do produtor rural", afirma.
Banco Central acompanha o impacto
Os resultados preliminares foram levados à diretoria do Banco Central, que analisa o efeito das apostas online, reguladas no país desde janeiro de 2025, sobre o endividamento para adotar eventuais medidas corretivas. A preocupação atual da autoridade é a correlação entre apostas e inadimplência no Pronaf, programa federal que concede crédito rural barato a pequenos produtores familiares. Procurado, o BC não comentou.
Há cerca de 20 dias, em evento do setor bancário, o diretor de Fiscalização do BC, Aílton de Aquino, disse que as apostas são um "elemento central" no endividamento das famílias e classificou de "fake news" a visão de que as casas de apostas não contribuem para a dívida. Ele também questionou a publicidade de apostas dentro de aplicativos financeiros. Bochi defende seguir experiências internacionais, com restrições mais duras à publicidade e ao patrocínio.
A análise do Sicredi ainda é preliminar: não desdobra os apostadores por faixa de renda, localização, atividade econômica ou tipo de crédito. Segundo a Folha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem prometendo medidas contra os sites de apostas.