O valor das apreensões de canetas emagrecedoras irregulares feitas pela Receita Federal saltou de R$ 4 milhões para mais de R$ 80 milhões no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano passado, um aumento superior a 20 vezes. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira (27) em Brasília, durante o seminário Mercado Ilegal, promovido por O Globo, Valor Econômico, Extra e CBN, segundo a Folha de S.Paulo.
Há uma ressalva importante: a Receita não informou a quantas unidades o valor corresponde. O total se refere a medicamentos sem registro ou sem autorização de comercialização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), o que torna ilegal a entrada deles no país.
Dados regionais ajudam a dimensionar o fenômeno. Segundo a CNN Brasil, só na fronteira com o Paraguai, em Foz do Iguaçu (PR), foram apreendidas 76.112 canetas e ampolas de semaglutida e tirzepatida no primeiro semestre, contra 24.994 em todo o ano de 2025. O recorde foi em junho, com 25.828 itens. A diferença de preço explica parte do fluxo: uma ampola de tirzepatida custa em média R$ 340 no país vizinho, enquanto o Mounjaro, versão regularizada no Brasil, é encontrado a partir de R$ 1.400.
Escondidas em tênis e frascos de shampoo
Segundo a Receita, os medicamentos chegam escondidos em frascos de shampoo, solados de tênis e espaços vazios na carroceria de veículos, muitas vezes sem a refrigeração necessária para conservar o produto. O auditor fiscal Flávio Bernardino de Carvalho descreve um fluxo pulverizado, que mistura crime organizado e pessoas agindo sozinhas:
"Vem ônibus de linha, carros, caminhão de empresas de marketplace, vem turistas. Tudo quanto é forma. Tem o crime organizado e pessoas avulsas. É muito pulverizado."
Ainda segundo o auditor, ouvido pela CNN Brasil, os emagrecedores já são o segundo item em valor de apreensões na região fiscal do Paraná e de Santa Catarina, atrás apenas de celulares. A Receita também identificou expansão da oferta irregular em plataformas de marketplace. Para Erivelto Moysés Torrico Alencar, superintendente regional adjunto da 1ª Região Fiscal, a dimensão desse comércio evidencia falhas no controle das plataformas sobre vendedores e produtos anunciados.
Do lado da demanda, levantamento da Serasa Experian aponta que os pedidos online de medicamentos associados ao GLP-1 cresceram 149,3% no primeiro semestre de 2026, passando de 547.249 para 1.364.354 solicitações, que somaram mais de R$ 2,3 bilhões. Um estudo do Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde da Fiocruz, publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, registrou aumento nas buscas por produtos sem registro sanitário, como TG, Tirzec, Lipoless e retatrutida. O auditor Flávio Bernardino pondera que uma eventual quebra da patente da tirzepatida no futuro poderia reduzir o interesse pelo produto paraguaio, como ocorreu com outros medicamentos, mas isso ainda é uma hipótese, não um fato confirmado.
Para o consumidor, as recomendações práticas são diretas: compre esses medicamentos apenas em farmácias licenciadas e com receita médica, confira o registro do produto no site da Anvisa e desconfie de preços muito abaixo do mercado ou de venda por redes sociais e marketplaces. Produtos transportados sem refrigeração podem perder eficácia e oferecer risco à saúde. Vale lembrar que o contrabando de medicamentos é crime contra a saúde pública, previsto no artigo 273 do Código Penal, com pena de 10 a 15 anos de reclusão.