Gabinetes do Supremo Tribunal Federal (STF) passaram a analisar, sob acesso restrito, as cópias dos dados extraídos do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso do Banco Master. O arquivo compactado, enviado pela Polícia Federal (PF) por determinação de ministros da Corte, tem 500 gigabytes. Segundo relatos feitos ao g1 neste sábado (19), os ministros ainda não decidiram os próximos passos da apuração e não há prazo para o fim da análise, que ocorre em meio à crise que paralisou pautas importantes da Corte em plena campanha presidencial.
Para dar uma dimensão do volume, o tamanho comporta cerca de 140 mil imagens em alta resolução, mais de 120 mil arquivos de áudio em MP3 ou cerca de 40 horas de filmes em alta definição, em comparação feita pelo g1. Os dados estão divididos em pastas com conversas, áudios e logs, os registros de atividades do aparelho. A organização coube ao software de perícia IPED (Indexador e Processador de Evidências Digitais), que permite buscas por palavras-chave e gera um código que assegura a integridade das provas e identifica tentativas de alteração. Peritos também usaram ferramentas para recuperar dados apagados ou protegidos por senha. A varredura, segundo o g1, combina uma busca geral sobre pontos de atenção indicados pelos próprios ministros com a verificação do recorte feito pela PF para a produção dos relatórios, com cuidado para preservar questões pessoais presentes na extração. Em nota, a PF afirmou:
"As cópias entregues são idênticas à extração realizada do aparelho. O material original permanece integralmente nas dependências da instituição, dentro de cadeia de custódia formalmente documentada, com os respectivos lacres íntegros e mecanismos de verificação de integridade digital."
A cópia foi encaminhada aos ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Fux, André Mendonça e Nunes Marques, segundo o g1. Até quinta-feira (17), cinco deles haviam recebido o material, informou o Poder360. O envio decorre de uma disputa interna pelo acesso irrestrito ao acervo digital de Vorcaro: Zanin e Gilmar acionaram o presidente da Corte, Edson Fachin, cobrando a entrega da integralidade do espelhamento do aparelho, e Fachin decidiu ouvir Mendonça, relator do caso Master, que alegou que a divulgação provocaria tumulto no julgamento. Mesmo sem decisão do presidente do STF, Zanin, Gilmar e Moraes determinaram que a PF enviasse cópias, e Mendonça e Fux também requisitaram o material. Mendonça afirmou que a cópia que recebeu era de segurança, criptografada e lacrada, funcionando como contraprova caso o original sofresse extravio, e que não manuseou a mídia.
Como o caso chegou até aqui
O celular foi apreendido pela PF em 17 de novembro de 2025, no dia da primeira prisão preventiva de Vorcaro decretada pela Justiça. A extração identificou interlocução do ex-banqueiro com autoridades dos Três Poderes, incluindo ministros do STF e parentes, deputados, senadores e diretores do Banco Central. O material já embasou buscas contra os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA). No dia 12 de setembro, Fachin suspendeu provisoriamente as relatorias de Mendonça nos casos do Master e das fraudes nos descontos do INSS, segundo o Poder360. Em 15 de setembro, o STF iniciou sessão para decidir sobre a abertura de apuração contra Moraes, depois que Mendonça retirou o sigilo de relatório da PF que identifica o ministro como interlocutor de 52 mensagens de Vorcaro. O julgamento foi interrompido por pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Segundo o relatório da PF, elaborado por ordem de Mendonça, Moraes atuou diretamente na análise e na edição de um contrato de R$ 130 milhões assinado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci, esposa do ministro. A PF aponta ainda que, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha que deixar o Brasil, e que pediu ajuda ao ministro para conter ações da PF e do Ministério Público Federal contra o banco. O relatório registra oito encontros entre os dois. Moraes classificou de fantasiosas as mensagens em que a PF o identifica como interlocutor de Vorcaro e afirmou que nunca favoreceu o ex-banqueiro ou o Master. O ministro também pediu abertura de apuração contra Mendonça por abuso de autoridade e improbidade administrativa, e Fachin determinou que esse pedido só será pautado depois de concluída a questão de ordem sobre o caso Vorcaro-Moraes.
Próximos passos
Com Mendonça afastado provisoriamente das relatorias e o julgamento interrompido pelo pedido de vista, as investigações do Master e do INSS estão paralisadas na prática, segundo o Poder360, e a retomada da análise do caso Vorcaro-Moraes pode ficar para meados de dezembro. Nos bastidores do tribunal, os ministros dizem que ainda não decidiram o que fazer após a leitura do material, e não há prazo definido para o encerramento da apuração.