BC de Campos Neto aprovou diretor investigado do Master após alerta da CVM
O Banco Central aprovou, em 4 de agosto de 2021, a diretoria do Banco Master que incluía Angelo Antonio Ribeiro da Silva, executivo que estava sob apuração da CVM por suposta manipulação de preços e cujo caso já havia sido comunicado formalmente à autoridade monetária. A revelação é do ICL Notícias, com base em relatório da própria Comissão de Valores Mobiliários citado em decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgada na quinta-feira (24). A homologação ocorreu na gestão de Roberto Campos Neto à frente do BC e incluiu também Daniel Vorcaro e Luiz Antonio Bull.Angelo respondia pela emissão de ordens de negociação do então Banco Máxima com cotas do fundo imobiliário CARE11, ligado ao setor funerário. A área técnica da CVM identificou 455 operações de compra entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 e concluiu que o banco atuou de forma coordenada e sistemática, sobretudo nos últimos pregões de cada mês; em períodos relevantes, respondeu por entre 48,9% e 87% das compras. Em gravação reproduzida no processo, o executivo diz que a operação era "pra não cair" e pede ao operador uma "protegida no papel".A apuração resultou no Processo Administrativo Sancionador 19957.006441/2021-87, com proposta de responsabilização do banco e do executivo. O mérito não chegou a ser julgado: em novembro de 2022, a CVM aceitou acordo pelo qual o Máxima se comprometeu a pagar R$ 2,208 milhões e Angelo, R$ 736 mil, total de R$ 2,944 milhões, sem reconhecimento de culpa. Em sua defesa, o banco afirmou que acreditava na valorização dos ativos do setor funerário, que as compras faziam parte de sua estratégia de investimento e que a baixa liquidez do fundo explicava o efeito das ordens sobre a cotação. Não há condenação contra Angelo, que permanece na condição de investigado no âmbito do caso Master.Linha do tempoEm fevereiro de 2019, o BC rejeitou a transferência do controle do Máxima para Vorcaro por insuficiência de informações sobre a origem dos recursos. Oito meses depois, já sob Campos Neto, a diretoria colegiada reconsiderou e autorizou a operação. Em 2020, a supervisão do próprio BC apontou problemas de liquidez e alertou Vorcaro de que o descumprimento das exigências poderia levar à liquidação extrajudicial. Em 2021, o Máxima virou Master, Angelo foi homologado diretor e o BC autorizou a aquisição do Banco Vipal. Entre 2022 e 2024, a fiscalização enviou 31 ofícios ao conglomerado determinando ajustes. Em novembro de 2025, já na gestão de Gabriel Galípolo, o banco foi liquidado com base em diagnóstico de grave crise de liquidez.Inquérito no STFNa quinta (24), Dino determinou que a Polícia Federal investigue a atuação da CVM no caso Master por suposta omissão. Segundo o G1, um dos focos é o arquivamento, em 2022, de denúncia encaminhada pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) que apontava mais de R$ 3 bilhões aplicados em ativos ilíquidos, de um total de cerca de R$ 5 bilhões captados com cobertura do fundo. O relatório do grupo de trabalho da CVM registrou que "não houve qualquer ação apuratória" após o recebimento do relato. Levantamento do ICL Notícias mostra que o BC recebeu quatro comunicações da CVM sobre o universo Master entre 2020 e 2022, todas na gestão Campos Neto, além de outras duas em 2025 e em janeiro de 2026. Procurado, o BC não respondeu quais medidas adotou.Campos Neto afirma que decisões como intervenção e liquidação não dependiam exclusivamente dele e que nenhuma proposta nesse sentido chegou à diretoria colegiada em sua gestão. Segundo reportagem do Estadão citada pelo ICL Notícias, ele evitou medidas mais extremas em pelo menos duas ocasiões em 2024, quando o Master se comprometeu a captar R$ 15 bilhões em recursos de longo prazo e conseguiu cerca de R$ 2 bilhões. Os próximos passos têm data: a PF deve apresentar o primeiro relatório do inquérito em até 60 dias, contados de 24 de setembro; a CVM foi intimada a entregar em 72 horas a integralidade do processo arquivado; e Galípolo confirmou ao Estadão e ao O Globo que deporá à PF como testemunha em outubro.
HBHenrique Barros