André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminhou na segunda-feira (31) um ofício à Procuradoria-Geral da República (PGR) pedindo manifestação sobre um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens apreendidas de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master e preso na operação Compliance Zero. Nas mensagens, o ex-banqueiro pediria a um interlocutor não identificado a atuação de "Andrei" e "Paulo" a seu favor. Para os investigadores, as referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e a Paulo Gonet, procurador-geral da República. O relator deu prazo de cinco dias para a resposta.
A informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles e confirmada pela TV Globo e pela Folha de S.Paulo. Segundo o g1, a PF localizou a anotação em um dos celulares de Vorcaro no fim de outubro do ano passado. O destinatário não aparece identificado porque o ex-banqueiro tinha o hábito de salvar anotações, tirar prints de conversas e reenviar a imagem como visualização única. Investigadores da PF não descartam que a mensagem tenha sido um pedido de proteção endereçado ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Mendonça é o relator das investigações sobre as fraudes financeiras envolvendo o Master.
O que diz o relatório
De acordo com o documento produzido pelos investigadores, Vorcaro descreveu a situação do banco e os problemas que enfrentava. Ele relatou ter recebido informações confidenciais de integrantes do Banco Central de que "G", que seria Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, e os demais diretores estavam sob forte pressão para adotar alguma medida contra a instituição financeira, em razão de uma intensa cobrança da PF e do Ministério Público Federal. Segundo o relato do banqueiro, tanto a PF quanto o MPF alegavam que tomariam providências contra ele.
"Daniel Vorcaro também afirmou ser importante que o interlocutor reforçasse, junto a Andrei (provavelmente Andrei Augusto Rodrigues, Diretor-Geral da Polícia Federal) e Paulo (provavelmente Paulo Gonet Branco, Procurador-Geral da República), a necessidade de impedir que subordinados, dentro das estruturas hierárquicas da PF e do MPF, praticassem 'alguma sacanagem', pois, segundo ele, 'aí vai tudo pro saco'."
O trecho consta do relatório da PF transcrito pelo g1. As identificações de Andrei e de Paulo aparecem como prováveis no próprio documento, e o interlocutor da mensagem segue sem identificação confirmada. Procurada, a PGR não retornou os contatos da reportagem do g1. A Folha procurou as assessorias de Andrei, de Gonet e de Moraes na terça-feira (1º) e informou que, até a publicação, não havia resposta.
Como o caso chegou até aqui
O Master virou alvo de investigações por suspeita de fraudes financeiras, e Vorcaro foi preso na Compliance Zero. O caso ganhou dimensão política com a revelação de áudios em que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede R$ 61 milhões ao então dono do banco para finalizar o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, conforme a Folha. Em entrevista à Globo na sexta-feira (28), o candidato disse que "nunca é demais" explicar a relação com Vorcaro e classificou o tema como "mais que esclarecido". Veja a linha do tempo:
- setembro de 2025: o Banco Central nega a venda do Master ao BRB, com as suspeitas sobre o banco já conhecidas;
- fim de outubro de 2025: a PF encontra a anotação que cita Andrei e Paulo em um dos celulares de Vorcaro;
- julho de 2026: Mendonça autoriza a abertura de inquérito da PF sobre os repasses ligados ao filme, após parecer de Gonet apontar elementos suficientes;
- 31 de agosto de 2026: o relator encaminha o documento à PGR e fixa o prazo de cinco dias.
O próximo passo é a manifestação da PGR, com prazo de cinco dias contado da segunda-feira (31). Até a publicação das reportagens desta terça, nenhuma das autoridades citadas no documento havia se pronunciado publicamente sobre o conteúdo das mensagens.