arrow_backVoltar
PoliticsLulaFederal PoliceCorruptioninfluence-peddling

PF investiga se lobista amiga de Lulinha intermediou contrato nos Correios

bookmark_borderSalvar
HBPor Henrique Barros•30 de agosto de 2026•Fontes: O Globo, G1, Claudio Dantas

A Polícia Federal investiga se a empresária e lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula, atuou para intermediar negócios com os Correios. A suspeita, revelada por O Globo nesta sexta-feira (28), nasceu de uma minuta de contrato e de mensagens encontradas no celular da empresária, apreendido no inquérito que apura suposto tráfico de influência em órgãos públicos federais. Roberta e Lulinha são investigados, não há denúncia formal contra eles neste caso, e ambos negam qualquer irregularidade.

O documento apreendido pela PF envolve a RL Consultoria e Intermediações, da qual Roberta é sócia, e a Safe Consig Tecnologia da Informação, especializada em plataformas de gestão de empréstimos consignados. Pela minuta, a consultoria de Roberta faria jus a uma comissão de 50% sobre as vendas da Safe Consig.

"A título de comissão pelas vendas que realizar, fará jus ao percentual de 50%, que deverá ser calculado sobre o valor total verificado no sistema de financiamento da contratante Safe, mais especificamente sobre o valor líquido", diz o trecho reproduzido por O Globo.

Em 13 de maio de 2024, Roberta encaminhou o arquivo a um interlocutor com a mensagem: "Saulo me mandou revisado agora. Vou assinar, tá?". A PF apura se o Saulo citado é Saulo de Tasso Alves Caracas Dino, sócio da Safe Consig. Procurado, ele afirmou desconhecer qualquer contrato entre as duas empresas. Duas semanas depois, em 28 de maio de 2024, os Correios contrataram a Safe Consig em regime de comodato, sem custo para a estatal, para administrar a margem de consignado de cerca de 84 mil funcionários. A empresa é remunerada pelas instituições financeiras que acessam os dados dos servidores aptos a contratar os empréstimos.

Quem assinou e o que diz cada lado

O contrato foi assinado pelo então presidente dos Correios, Fabiano Silva, pela diretora Econômico-Financeira, de Tecnologia e Segurança da Informação, Maria do Carmo Lara Perpétuo, e pelo diretor de Gestão de Pessoas, Getúlio Marques Ferreira. Segundo O Globo, as duas diretorias eram ocupadas por nomes ligados ao PT, e Fabiano mantém relação de amizade com Roberta e Lulinha, além de integrar o Grupo Prerrogativas, coordenado pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende Lulinha no inquérito de tráfico de influência. Os três já deixaram a estatal.

Fabiano confirmou conhecer Roberta e Lulinha, mas negou ter interferido na contratação: "Os ritos administrativos nos Correios são cumpridos. Não tem amizade ou camaradagem na instituição. Existe uma governança interna que é cumprida". Maria do Carmo afirmou que a elaboração do contrato coube à área administrativa e que "nunca fui procurada por ninguém para pedir nada. Nunca tive contato com Lulinha e Roberta". Ferreira não respondeu à reportagem. Em nota, os Correios disseram não ter "conhecimento de irregularidades relacionadas à contratação ou à execução do contrato". Rodrigo Feitosa, sócio da Safe Consig que assinou o acordo com a estatal, negou intermediação: "Se alguém eventualmente tratou desse tema, conforme mencionado em sua mensagem, isso não ocorreu, em nenhuma hipótese, com a devida autorização da Safe Consig". A defesa de Roberta não comentou a suspeita envolvendo os Correios.

Além da minuta, os investigadores analisam uma mensagem, revelada pelo Estadão, em que Roberta cita a estatal ao listar negócios em andamento para um empresário do setor de cibersegurança: "Marquei semana que vem Geap para vc também. Amanhã, Julio. Portos e aeroportos. Correios". O texto não menciona Lulinha.

Linha do tempo do caso

  • 13 de maio de 2024: Roberta envia a um interlocutor a minuta que prevê comissão de 50% da Safe Consig à sua consultoria;
  • 28 de maio de 2024: os Correios contratam a Safe Consig em regime de comodato;
  • 2025 a 2026: a PF apreende o celular da empresária no inquérito que apura tráfico de influência, no qual Lulinha também é investigado; Roberta também aparece nas apurações da Operação Sem Desconto, sobre fraudes em benefícios do INSS;
  • 27 de agosto de 2026: em entrevista à TV Globo, Lula diz não conhecer Roberta; no dia 28, sua campanha divulga nota afirmando que fotos dos dois juntos não significam relação pessoal, profissional ou política;
  • 28 de agosto de 2026: O Globo revela que a PF apura atuação da lobista junto aos Correios.

De acordo com o G1, a PF já havia identificado nas investigações repasses de Roberta a Marco Aurélio Santana, o Marcola, então chefe de gabinete da Presidência, e uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O caso dos Correios integra a apuração mais ampla sobre uma possível rede de contatos mantida pela lobista e pelo filho do presidente para viabilizar negócios de empresas privadas junto ao governo federal. O inquérito segue em andamento, sem prazo público para conclusão; ainda não houve indiciamento nem denúncia do Ministério Público Federal neste ponto, e as investigações, por si só, não significam comprovação de crime.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Faça login para comentar. Entrar