O empresário João Carlos Mansur, fundador e ex-dono da gestora Reag, afirma em delação premiada firmada com a PGR (Procuradoria-Geral da República) que fundos de investimento geridos pela empresa serviram para ocultar o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro, do Banco Master, a autoridades públicas. A colaboração foi enviada na semana passada ao ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), e aguarda homologação, segundo a Folha de S.Paulo.
De acordo com pessoas com conhecimento do acordo ouvidas pela Folha, Mansur descreve a participação da gestora e dos fundos de investimento usados no esquema investigado do Master, além de pessoas que operavam como laranjas de Vorcaro. A Polícia Federal participou do início das negociações, mas não prosseguiu com as tratativas. Segundo o site O Brasilianista, a proposta entregue à PGR no fim de agosto, com 17 anexos, narra o caminho dos recursos: o dinheiro saía do Master para empresas, que direcionavam parte dos valores a fundos da Reag, com uso de laranjas e de estruturas offshore para dificultar a identificação da origem e do destino final.
Como o caso chegou até aqui
Desde o ano passado as investigações apontam suspeitas de fraudes financeiras relacionadas a Vorcaro e à Reag no chamado caso Master, e a delação de Mansur é a primeira colaboração formalizada pela PGR na Operação Compliance Zero, uma das frentes da apuração. A gestora aparece em operações centrais do caso: a PF apura uma triangulação entre o Master, a Reag e o Banco de Brasília (BRB), que comprou R$ 21,9 bilhões em carteiras de crédito do Master, das quais R$ 12,2 bilhões são considerados fraudulentos pelas investigações, segundo O Brasilianista. Fundos ligados à Reag, entre eles Verbier, Cabreúva, Borneo e Delta, ficaram com participação de 23,5% no capital do BRB. Mansur é apontado como um dos articuladores dessas movimentações, e o ex-presidente do banco Paulo Henrique Costa também é investigado.
No acordo, além de colaborar na localização e na recuperação dos recursos, Mansur se comprometeu a pagar multa de R$ 40 milhões, valor revelado pelo UOL e equivalente, segundo O Brasilianista, ao que o empresário teria recebido da Reag enquanto comandava a gestora. Boa parte do dinheiro desviado está fora do Brasil, em offshores, segundo os investigadores, e a colaboração pode permitir que esses valores retornem ao país sem a necessidade de acordos com autoridades estrangeiras, o que evitaria que alguns países cobrem um percentual do montante recuperado, relata a Folha. Em acordos desse tipo, as declarações do colaborador precisam ser confirmadas por outros elementos de prova. Vorcaro, investigado no caso, também apresentou propostas de colaboração, mas investigadores avaliaram que o material não acrescentava informações suficientemente novas, segundo O Brasilianista.
Defesas e próximos passos
Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou que não teve acesso aos anexos da colaboração e que, por isso, não tem como se manifestar. A defesa de Mansur não se manifestou. A proposta que antecedeu o acordo mencionava ainda nomes políticos, entre eles o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), segundo O Brasilianista, que não detalhou o teor das menções. Vorcaro, Mansur e Costa são investigados no inquérito; Wagner e ACM Neto aparecem apenas como citados na proposta. O próximo passo é de Mendonça, relator do caso Master no STF: cabe a ele decidir se homologa o acordo, sem data prevista.