Uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público da Bahia aponta um cabo do Exército como fornecedor de armamentos e munições de uso restrito a organizações criminosas que atuam em Salvador. Segundo reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, exibida no domingo (13), o cabo Deivison dos Santos Ferreira, lotado no 6º Batalhão de Polícia do Exército, teria negociado munições de fuzil, granadas e armas com integrantes de um grupo que revendia drogas e armamentos a facções na capital baiana. O militar é investigado e, segundo sua defesa, nega todas as acusações.
As evidências descritas na reportagem vieram de celulares apreendidos em abril, em uma casa usada para armazenar e preparar drogas em Itapuã, bairro de Salvador. Um dos aparelhos pertencia a Gabriel Reis Oliveira, apontado pela polícia como responsável pela compra e revenda de armas e drogas para diferentes facções, e nele os investigadores localizaram conversas atribuídas ao militar. Embora tenha usado apenas um emoji para se identificar nos diálogos, o cabo teria fornecido CPF e chave Pix para receber pagamentos, informação que permitiu confirmar sua identidade.
Como o caso chegou até aqui
A investigação começou em março deste ano, conforme o G1 Bahia, e resultou em uma operação deflagrada nesta semana com cerca de 250 agentes. Segundo o Fantástico, a ação prendeu 33 pessoas suspeitas de integrar a organização criminosa: 27 em Salvador e região metropolitana, duas no interior da Bahia, três em Sergipe e uma em São Paulo. A fase executada na quinta-feira (10), relatada pelo G1 Bahia, prendeu 23 pessoas em cidades como Salvador, Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho, Juazeiro e Senhor do Bonfim, além de municípios de São Paulo, Sergipe e Espírito Santo. Segundo a Polícia Civil, o grupo movimentou mais de R$ 4 milhões e dividia as atividades em núcleos de comando, finanças, armazenamento, logística e venda de drogas, com munições do calibre 5,56 transportadas por uma empresa de fachada.
Para os investigadores, somente para esse grupo o cabo teria vendido cerca de mil munições de fuzil dos calibres 5,56 e 7,62. Há registros de negociações envolvendo granadas, mas a quantidade desviada ainda não foi identificada. A principal linha de investigação sustenta que munições e granadas teriam sido desviadas durante exercícios militares: o material que sobrava dos treinamentos, realizados inclusive em Paulo Afonso, no interior baiano, deveria retornar ao paiol da unidade, e os investigadores suspeitam que registros de estoque eram alterados para esconder as diferenças. O militar também oferecia pistolas e fuzis nas conversas, embora não haja confirmação de que esses armamentos tenham saído de estoques do Exército.
Posição do Exército e da defesa
Em nota ao Fantástico, o Comando da 6ª Região Militar informou que o cabo está preso preventivamente desde agosto, por determinação da Justiça Militar, em investigação relacionada ao desaparecimento de coletes balísticos, e que permanecerá custodiado em unidade militar à disposição da Justiça. Um dos mandados da operação desta semana tinha o militar como alvo, mas ele já estava detido.
A defesa do cabo afirmou, em nota, que ele nega todas as acusações e que "no momento oportuno, todos os fatos serão esclarecidos". Os advogados disseram ainda que trabalham para revogar as prisões.
Os próximos passos estão com a Polícia Civil e o Ministério Público. Os investigadores buscam esclarecer a origem das armas e munições negociadas e identificar outros participantes do esquema, já que, em diferentes conversas, o cabo faz referência a outras pessoas envolvidas no fornecimento de granadas e munições. Para a Polícia Civil, ainda é prematuro afirmar que outros militares participavam da organização, mas a hipótese não foi descartada. Não foram divulgadas datas para novos atos da investigação.