O produtor americano Michael Brian Davis, que se identifica como sócio majoritário da Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos, recusou entregar voluntariamente à Polícia Federal dados sobre as despesas do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em e-mail de 2 de setembro anexado ao inquérito do caso no STF (Supremo Tribunal Federal), Davis afirmou que documentos da empresa custodiados em território americano só serão repassados às autoridades brasileiras mediante ordem de um juiz dos Estados Unidos.
Segundo o G1 e a Folha de S.Paulo, a PF enviou em 19 de agosto um ofício à produtora Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up no Brasil, com prazo de dez dias para a apresentação voluntária de documentos. A Polícia Federal pediu cópias de faturas emitidas e recebidas no exterior, contratos com atores estrangeiros, entre eles Jim Caviezel, que interpreta Bolsonaro, além de comprovantes de pagamento, instrumentos de câmbio, notas fiscais e documentos societários ligados ao financiamento. Karina repassou o ofício a Davis em 2 de setembro e pediu apoio para elaborar a resposta; o produtor respondeu no mesmo dia com a recusa.
Na mensagem, reproduzida na íntegra pelo G1, Davis escreveu:
"Conforme orientação de nossos advogados nos Estados Unidos, informo que, na minha condição de sócio majoritário da GOUP Entertainment LLC, não autorizo o encaminhamento às autoridades brasileiras ou a quaisquer terceiros de documentos societários, contábeis, fiscais, bancários ou contratuais da empresa custodiados nos Estados Unidos sem a estrita observância do devido processo legal norte-americano."
Davis escreveu ainda que requisições de autoridades brasileiras sobre documentos sob jurisdição americana devem ser formalizadas "exclusivamente pelos canais diplomáticos e de cooperação jurídica internacional competentes, incluindo, quando aplicável, carta rogatória ou pedido de assistência judiciária mútua". Na sua avaliação, qualquer entrega só pode ocorrer "mediante ordem emanada de juiz norte-americano". Ele pediu que nenhum documento da empresa seja compartilhado sem validação prévia dos advogados da Go Up nos EUA.
O caso, em resumo
O filme é baseado na biografia de Jair Bolsonaro (PL), que, segundo a Folha, está preso por tentativa de golpe. A produção ganhou notoriedade depois que o site Intercept Brasil divulgou conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência nas eleições de 2026, pede recursos ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a obra. Desde julho, Flávio é formalmente investigado no inquérito relatado pelo ministro André Mendonça, do STF, que apura repasses de pelo menos US$ 24 milhões, cerca de R$ 122,7 milhões na cotação atual, de Vorcaro para o filme. Investigadores suspeitam, segundo o G1, que parte do dinheiro não tenha sido usada na produção. Um segundo inquérito, do ministro Flávio Dino, apura se a Go Up usou emendas parlamentares para bancar o filme. Na quinta-feira (10), a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra suspeitos de desvio de emendas, entre os alvos o deputado federal Mario Frias (PL-RJ) e Karina. Os e-mails se tornaram públicos após Mendonça levantar o sigilo de documentos do caso na sexta-feira (11).
A Folha relata que Flávio prometeu uma prestação de contas pública sobre o financiamento do filme, mas passou a terceirizar para a Go Up a divulgação de um balanço. Flávio e os demais citados no inquérito figuram como investigados e mantêm a presunção de inocência.
Próximos passos
Com a recusa à entrega voluntária, a PF só pode alcançar os registros mantidos nos Estados Unidos por meio de cooperação jurídica internacional, exatamente o caminho indicado por Davis. Um pedido de assistência judiciária mútua ou uma carta rogatória precisa tramitar pela Justiça americana antes de qualquer entrega, e não há data definida para essa formalização. No STF, os inquéritos de Mendonça e Dino seguem em curso. Investigadores defendem o aprofundamento da apuração para identificar a origem do dinheiro, o trânsito dos valores e os beneficiários finais da operação, segundo o G1.