As cobranças judiciais de dívidas privadas atingiram o maior patamar da série histórica em 2025: entraram no Judiciário brasileiro 1.239.537 novos processos de execução de títulos extrajudiciais não fiscais, segundo levantamento do g1 com base no Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O volume é cerca de 60% maior que o de 2020, quando foram registrados 772.645 casos. Entre janeiro e março de 2026, outros 295.541 processos desse tipo foram distribuídos.
Na execução de título extrajudicial, o documento apresentado pelo credor já comprova o débito, e o juiz é acionado para determinar o pagamento, sem discussão prévia do mérito. As ações alcançam consumidores e empresas e cobram dívidas como contratos de empréstimo, financiamentos de veículos e imóveis, aluguéis, cheques e duplicatas. A série do CNJ sobe todos os anos: foram 838.701 novos processos em 2021, 994.098 em 2022, 1.131.730 em 2023 e 1.194.184 em 2024, antes do recorde de 2025.
O número sai em um ano de demanda máxima na Justiça. O relatório Justiça em Números 2026, divulgado pelo CNJ em junho, aponta 40,9 milhões de processos novos em 2025, o maior volume da série iniciada em 2009. O recorde das execuções também coincide com o endividamento das famílias: em março de 2026, 80,4% dos lares brasileiros tinham dívidas, maior percentual da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Um ano antes, o índice era de 77,1%.
Por que as dívidas chegam à Justiça
Para Fernando Corrêa, coordenador do laboratório de jurimetria da Associação Brasileira de Jurimetria (ABJ), a execução aparece quando as outras tentativas de cobrança já falharam. "Execução é meio inefetiva, porque é difícil pegar os bens das partes. Não é que estão descobrindo essa opção como uma possibilidade de satisfazer melhor as dívidas. É meio que o último recurso", afirma. O g1 cita ainda, entre as causas apontadas por especialistas, o crédito fácil, as apostas esportivas (as chamadas bets) e a prática de refinanciar dívidas antigas com crédito novo.
A juíza Káren Rick Danilevicz Bertoncello, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS), lê o volume de ações à luz da falta de uma cultura consolidada de renegociação antes de o caso chegar ao Judiciário. "Nós, no Brasil, ainda não temos uma cultura solidificada sobre renegociação voluntária extrajudicial", afirma a magistrada, que cita o excesso de concessão de crédito como fator central do superendividamento. Para ela, os feirões bancários "acabam prejudicando o orçamento, porque ele não consegue ter esse olhar global para distribuir o que tem de capacidade de pagamento a todos os seus credores". Segundo a juíza, a Lei do Superendividamento passou a exigir que bancos e financeiras avaliem a capacidade real de pagamento do consumidor antes da concessão e coloca sobre o credor o dever de saber com quem está contratando.
No Rio Grande do Sul, o TJRS mantém um projeto de gestão de superendividamento que reúne 31.075 processos, dos quais mais de 20 mil seguem ativos e 13.657 envolvem idosos; ao todo, 6.273 acordos foram homologados. Segundo o relatório do CNJ, a conciliação resolveu 28% das execuções de títulos extrajudiciais não fiscais na Justiça Estadual em 2025.
Respostas do governo
Nos últimos anos, o governo federal lançou programas como o Desenrola Brasil para facilitar acordos e limpar o nome de consumidores inadimplentes. Em abril, o g1 mostrou que o governo Lula estudava uma nova proposta: reunir dívidas de cartão de crédito, crédito pessoal e outras em uma só dívida, com juros mais baixos e desconto no principal que poderia chegar a 80% em alguns casos. Também em 2026, foi regulamentado o uso de parte do FGTS como garantia no Consignado CLT. Para especialistas ouvidos pelo g1, a renegociação alivia o orçamento no curto prazo, mas não resolve o problema se vier acompanhada de nova concessão de crédito sem avaliação real da capacidade de pagamento. Não há data definida para o anúncio da proposta de consolidação das dívidas, e os dados do primeiro trimestre indicam que o ritmo de novas execuções segue elevado.