A Human Rights Watch (HRW) denunciou nesta segunda-feira (24) que Facebook e TikTok falham em detectar, remover e impedir conteúdos produzidos por grupos armados da Colômbia para recrutar menores de idade. Segundo a ONG, os algoritmos das duas plataformas parecem inclusive promover essas publicações, que ajudaram a engrossar um recrutamento que atingiu pelo menos 1.500 crianças e adolescentes no país desde 2021, com forte alta dos casos a partir de 2023, de acordo com dados da Defensoria do Povo colombiana.
O relatório, intitulado "I Thought I'd Never See My Mom Again" ("Achei que nunca mais veria minha mãe", em tradução livre), foi apresentado em Bogotá e descreve dezenas de perfis nas duas redes que exibiam armas, uniformes, maços de dinheiro, joias e braceletes de identificação dos grupos, alguns ao som de narcocorridos, canções de apologia ao crime. Somados, esses perfis tinham mais de 85 mil seguidores, e houve vídeos com mais de 250 mil visualizações e 50 mil curtidas. Nos comentários, usuários perguntavam como entrar para organizações como o cartel Clan del Golfo, a guerrilha ELN e as dissidências das Farc que rejeitaram o acordo de paz de 2016. Parte das publicações oferecia pagar até o transporte de quem quisesse se alistar. Os grupos armados vendem "um estilo de vida" de "dinheiro fácil", resumiu Mathew Charles, ex-assessor do Unicef na Colômbia e diretor da fundação Mi Historia, que trabalha com jovens vulneráveis.
"As plataformas digitais precisam reconhecer que estão sendo usadas para o recrutamento de meninas e meninos. Na prática, estão sendo usadas para a prática de delitos, inclusive crimes de guerra", afirmou Juanita Goebertus, diretora da HRW para as Américas, na apresentação do documento.
Crianças indígenas são quase metade das vítimas
Quase metade dos menores recrutados é indígena, embora os povos originários sejam apenas 4% da população da Colômbia. As meninas respondem por 40% dos casos e ficam expostas à violência sexual, e mais de 30% dos recrutados tinham entre 10 e 14 anos, situação que pode ser classificada como crime de guerra pelo Estatuto de Roma, segundo a HRW. Os grupos empregam as crianças principalmente para combater, obter informações e operar drones. A cooptação explora pobreza, exclusão social, violência doméstica e a falta de acesso à escola, muitas vezes por meio de intermediários que recebem até US$ 1 mil por criança, e chega a ocorrer dentro de escolas rurais. As dissidências das Farc concentram 74% dos recrutamentos registrados entre 2021 e 2025, sobretudo no departamento do Cauca, no sudoeste colombiano.
Empresas dizem ter removido perfis
A HRW afirma ter enviado em julho uma lista com 35 perfis à ByteDance, dona do TikTok, e outros 16 à Meta, dona do Facebook. Em agosto, as duas companhias informaram ter removido todo o material sinalizado, mas os pesquisadores constataram o surgimento de novas publicações promovendo os grupos, algumas ativas por mais de um mês. A Meta confirmou a autenticidade de uma carta anexada ao relatório, assinada por seu gerente de Direitos Humanos, Alex Warofka, na qual diz condenar o recrutamento de menores e afirma aperfeiçoar de forma constante a detecção de conteúdos que violem suas políticas, segundo a CNN Brasil. A ByteDance alegou impedir "de maneira proativa" que grupos armados ilegais e organizações criminosas usem a plataforma com esse objetivo.
Ao longo de seis décadas de conflito armado, guerrilhas e narcotraficantes recrutaram crianças e adolescentes pobres na Colômbia. O acordo de paz de 2016 desarmou a maior parte das Farc, mas dissidências e outros grupos se expandiram desde então. O presidente Abelardo de la Espriella, que assumiu em 7 de agosto, promove uma ofensiva militar contra essas organizações com ajuda dos Estados Unidos e de Israel. Para o relatório, a HRW fez quase 200 entrevistas, entre autoridades, agentes humanitários, líderes indígenas e crianças vítimas ou sob risco de recrutamento, e pede ao novo governo uma política integral de segurança e justiça, com recursos garantidos para as instituições de proteção à infância.
No Brasil, o tema tem um desdobramento direto: uma investigação da Polícia Federal aponta que o Comando Vermelho, uma das principais facções criminosas do país, conta com o apoio de empresários e pilotos para trazer drogas da Colômbia ao território brasileiro, segundo reportagem do G1 publicada no dia 13 de agosto.