O gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta quarta-feira (2) que o banqueiro Daniel Vorcaro prestou depoimento em caráter de urgência na semana passada a um juiz auxiliar que acompanha o inquérito do caso Banco Master. A oitiva ocorreu sem a presença da Polícia Federal e foi realizada a pedido dos advogados de Vorcaro, investigado no inquérito. A informação foi revelada pelo jornal O Globo e detalhada em nota pelo gabinete.
Segundo a nota, o depoimento foi marcado por insistência da defesa. "O depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência. Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar", diz o gabinete.
Sobre a ausência da PF, o gabinete afirma que audiências desse tipo exigem representante do Ministério Público e que essa exigência foi atendida. A equipe policial responsável pela investigação foi afastada da oitiva em cumprimento a normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), segundo a nota. "As normas do Conselho Nacional de Justiça consagram, como garantia de incolumidade física e psicológica do depoente, o afastamento da equipe policial responsável pela investigação nos atos em que ele é ouvido", diz o texto. Como o depoimento foi motivado por "relato de graves intimidações", o gabinete sustenta que a não convocação de agentes seguiu uma diretriz de proteção ao depoente.
O conteúdo da oitiva foi mantido em sigilo. A equipe de Mendonça afirma, no entanto, que a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes não foi citada no depoimento. Mais cedo, o gabinete também divulgou nota dizendo que Mendonça se reuniu com Vorcaro uma única vez, em março de 2025, para tratar de uma ação sobre precatórios em julgamento na Corte, antes de assumir, em fevereiro de 2026, a relatoria do caso Master no STF.
O caso até aqui
Vorcaro é ex-controlador do Banco Master, alvo de um inquérito que apura fraudes estimadas pela Polícia Federal em cerca de R$ 12 bilhões. Ele foi preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos. Na terça-feira (1º), o jornal O Estado de S. Paulo revelou mensagens extraídas do celular do banqueiro trocadas com um contato salvo com o nome de Alexandre de Moraes. Segundo a PF, os diálogos incluem cobranças sobre pagamentos de um contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da esposa do ministro, além de registros de encontros entre os dois, que a polícia contabiliza em oito, e mensagens em que Vorcaro pergunta sobre a própria prisão dois dias antes de ela ocorrer.
Na noite de terça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do inquérito instaurado por Mendonça para apurar as mensagens, cujo sigilo foi suspenso pelo próprio relator. Para a PGR, a investigação extrapolou os limites da atuação de um magistrado na fase pré-processual.
O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou nesta quarta, em nota oficial, que analisará os fatos e anunciará "as medidas cabíveis e necessárias" nos próximos dias. Segundo criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil, a expectativa é de que o plenário do STF julgue tanto o pedido de anulação da atuação de Mendonça quanto uma eventual investigação contra Moraes, em sessão a ser marcada por Fachin.