A munição encontrada na pistola atribuída a um advogado morto por policiais da Rota em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, pertence a dois lotes comprados pela Polícia Militar paulista em 2005 e 2007 que, segundo um levantamento, alimentam crimes há 14 anos. A conclusão é do Instituto Sou da Paz, com base em dados de um inquérito do Ministério Público Federal, e foi reportada pela Folha de S.Paulo neste domingo (6).
Cartuchos marcados com os códigos AAE67 e BAY18 estavam no carregador de uma pistola Glock calibre 9 mm apresentada por policiais militares na delegacia e atribuída a Carlos Alves Vieira, de 48 anos, conhecido como Ferrugem. Os códigos constam do laudo do Instituto de Criminalística, e a origem da munição foi confirmada pelo Sou da Paz após consulta feita pela Folha, que obteve o laudo da perícia e o inquérito do caso. Segundo o jornal, a numeração da pistola estava adulterada.
Os lotes eram grandes: AAE67 reunia 438 mil munições 9 mm, e BAY18 outras 320 mil do mesmo calibre, além de 1,4 milhão do tipo .40. Os dois desrespeitam uma portaria do Exército de 2004 que limita cada código de lote a 10 mil munições. Cápsulas dos mesmos lotes já foram usadas em chacinas na região metropolitana de São Paulo, em um ataque que deixou 11 mortos em Londrina (PR) e em um duplo homicídio em São Gonçalo (RJ), segundo o levantamento.
Confira a linha do tempo do caso:
- 2004: portaria do Exército limita a 10 mil o número de munições por código de lote.
- 2005 e 2007: a PM de São Paulo compra os lotes AAE67 e BAY18, que somam 758 mil cartuchos 9 mm e 1,4 milhão do calibre .40.
- Últimos 14 anos: cápsulas desses lotes aparecem em chacinas na Grande São Paulo, no ataque com 11 mortos em Londrina (PR) e em um duplo homicídio em São Gonçalo (RJ).
- 28 de novembro de 2025: Vieira é morto por policiais da Rota em Itaquaquecetuba; o caso é registrado como morte decorrente de intervenção policial.
- 5 de dezembro de 2025: a Ouvidoria da Polícia contesta a identificação do morto e pede as imagens das câmeras corporais.
- 6 de setembro de 2026: a Folha publica o cruzamento do Sou da Paz que liga a munição do caso aos lotes da PM.
A morte em Itaquaquecetuba
Vieira foi morto em 28 de novembro de 2025. A PM o apresentou como Ferrugem, integrante da Sintonia Final do PCC, e a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) alegou que ele transportava tijolos de maconha e duas pistolas e que atirou nos policiais ao ser abordado na Rua Carmo da Mata. A Ouvidoria da Polícia de São Paulo recebeu denúncias de que se tratava de um advogado registrado na OAB-SP, dono de uma empresa de cartonagem, casado, pai de dez filhos e avô de dois, de uma família tradicional de Poá; segundo o órgão, Ferrugem seria apenas um apelido de infância, parecido com o do homem procurado pela polícia. A Ouvidoria pediu à Corregedoria da PM as imagens das câmeras corporais dos policiais, requereu à Polícia Civil as filmagens do entorno do local e defendeu a transferência da investigação para a capital.
"Com essas divergências aparentes é imperiosa a célere e acurada investigação e apuração dos fatos, para que mais uma família não pague com o opróbio e a vida de seus pilares atuações e procedimentos injustificados e suspeitos...", afirmou a Ouvidoria em dezembro.
Em nota, a Rota negou a confusão de identidade: afirmou que Vieira foi identificado em trabalho de inteligência, que drogas e duas armas foram encontradas no carro dele e que "outros 400 suspeitos com o mesmo vulgo de Ferrugem também são monitorados e constam nos bancos criminais da corporação". A SSP-SP sustentou que o vínculo com o PCC foi confirmado pelo setor de inteligência e citou indícios de tráfico levantados pelo Denarc em 2022 na região do Alto Tietê, além de um antecedente por furto qualificado. Nenhum desses apontamentos resultou em condenação conhecida, e as versões seguem sob investigação.
O caso corre em sigilo no setor de homicídios de Mogi das Cruzes. O inquérito da Corregedoria da PM foi concluído e encaminhado à Justiça Militar, que o remeteu à Justiça comum, onde tramita. Questionada, a pasta do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a Polícia Civil "segue apurando a ocorrência de novembro de 2025 em Itaquaquecetuba, incluindo as munições utilizadas". O próximo passo é a conclusão do inquérito da Polícia Civil e o andamento do caso na Justiça comum; não há data prevista.