A Polícia Civil de São Paulo considera foragido o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil), alvo da Operação Vectura Corrupta, deflagrada nesta quinta-feira (17) pelo Ministério Público e pela Polícia Civil para apurar a suspeita de infiltração do PCC (Primeiro Comando da Capital) no poder público e no transporte coletivo da capital. Policiais foram à casa dele para cumprir mandado de prisão temporária de 30 dias e não o encontraram. Uma funcionária relatou aos agentes que o ex-parlamentar saiu na noite de quarta (16) para um compromisso de campanha.
A ação cumpre 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão expedidos pela 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo e pela Vara Estadual de Garantias de Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Direitos, em sete cidades: São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Segundo a investigação, os alvos seriam integrantes de núcleos da facção em funções de liderança. Os trabalhos são conduzidos pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Gaeco, o grupo especial de combate ao crime organizado do MP paulista.
O que aponta a investigação
Para o Ministério Público, "foram identificadas pelo menos 12 empresas de transporte coletivo de passageiros em operação na cidade de São Paulo que seriam controladas direta ou indiretamente pelo PCC", parte delas já alvo de inquéritos anteriores, "inclusive com denúncias já ofertadas". Segundo apuração da GloboNews, decisões estratégicas dessas empresas dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Leite, conclusão sustentada por interceptações telefônicas de operadores e por outros procedimentos sobre seu papel decisório. No pedido que embasou os mandados, o ex-vereador é citado como responsável direto pela operação de parte das companhias, e o documento menciona declarações de policiais militares, prestadas em processo no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff. As empresas citadas são Viação Transcap, Alfa Rodobus, Transwolff, A2 Transportes, Imperial Transportes, Move Bus, Pêssego Transportes, Allianz Transportes, Transunião, Qualibus Transportes, Norte Bus e Spencer Transportes.
Como o caso chegou até aqui
A Vectura Corrupta é desdobramento da Operação Decúrio, de agosto de 2024, que mapeou uma rede de comunicação mantida pelo PCC entre seus integrantes, inclusive presos, e supostas lideranças dos núcleos Sintonia Restrita e Sintonia dos Gravatas, este formado por advogados que, segundo a polícia, atuariam em benefício da facção. Ainda em 2024, o MP conduziu a Operação Fim da Linha, que atingiu a Transwolff e levou à prisão do então presidente da empresa, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, o Pandora, suspeito de vínculo com a organização. Segundo a Polícia Civil, as empresas Alfa Rodobus e Sancetur assumiram linhas antes operadas pela Transwolff e pela UpBus após a ação daquele ano. Os investigadores apuram ainda o suposto financiamento de campanhas pela facção nas eleições municipais de 2024 e na disputa eleitoral em curso neste ano.
Outros presos e a defesa
Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, a autarquia que gerencia o transporte coletivo da capital, e Danilo Marco Morgado Silva, que disputou a Prefeitura de Praia Grande em 2024 e teve cassado o registro de candidatura a deputado estadual. Segundo os investigadores, Levi mantinha encontros periódicos com José Daniel Satilite, apontado como um dos personagens centrais do esquema, para tratar de interesses da facção no setor após a Operação Fim da Linha. Sobre Danilo, a polícia aponta "forte vínculo" com integrantes do PCC e indícios de que sua campanha de 2024 teria sido financiada pela organização.
Leite foi vereador por sete mandatos, de 1997 a 2024, presidiu a Câmara Municipal quatro vezes e deixou a vida pública no ano passado. Hoje preside o União Brasil na capital e, em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista, formada com o PP. Ele é investigado, não réu, e mantém a presunção de inocência. Em nota, negou as acusações:
"Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações."
O mandado de prisão temporária contra o ex-vereador vale por 30 dias. Dentro desse prazo, cabe ao Ministério Público pedir prorrogação ou, ao fim do inquérito, oferecer denúncia à Vara Estadual de Garantias. O próximo passo conhecido é a apresentação de Leite às autoridades, anunciada por ele para as próximas 24 horas.