O juiz auxiliar Jair Francisco dos Santos, do TRE-MG (Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais), determinou neste domingo (6) que o site ICL Notícias retire do ar, em até 24 horas, seis publicações que afirmam que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), candidato à reeleição, chamou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro de "lindão" em um áudio. A liminar atende parcialmente a um pedido de direito de resposta apresentado pelo próprio parlamentar. No mesmo dia, três deputados do PT protocolaram representação na PGE (Procuradoria-Geral Eleitoral) pedindo que Nikolas seja declarado inelegível por oito anos por causa da divulgação de um documento falso atribuído à Polícia Federal.
Segundo o Poder360, a ordem alcança também a Meta, empresa responsável pelo Instagram e pelo Facebook. Ao analisar o áudio, gravado em março de 2025 e enviado por Nikolas a Vorcaro, o magistrado concluiu que o deputado "em nenhuma" das passagens se refere ao ex-dono do Banco Master como "lindão". A reportagem do ICL sustentava que a gravação mostra o parlamentar chamando o banqueiro de "Dani" e encerrando a mensagem com "Um abraço, lindão". Para o juiz, houve alteração do termo usado na despedida, o que geraria "violação da higidez e da integridade do sistema informativo", e o risco de propagação do conteúdo é maior diante da proximidade das eleições.
Parte do material permanece no ar. O pedido de resposta também contestava a informação de que Nikolas teria pedido a Vorcaro a "liberação de ativo de minério", mas o juiz não identificou, em análise preliminar, informação manifestamente falsa nesse ponto. Segundo a decisão, o áudio mostra que o deputado procurou Vorcaro para mediar o contato entre o ex-banqueiro e um amigo que tinha pendências ligadas a um ativo minerário, episódio que, para o magistrado, "abre espaço para discussão política". Outros vídeos questionados também não foram retirados, entre eles um em que uma jornalista menciona a expressão "lindão" em uma análise dos fatos. A CNN Brasil confirma a autenticidade do áudio e relata que Nikolas reconheceu os contatos com Vorcaro, negou proximidade e afirmou que a tentativa de ajudar o amigo não avançou.
Como o caso começou
A disputa judicial começou em 3 de setembro, quando o ICL Notícias publicou reportagens sobre mensagens e áudios trocados entre Nikolas e Vorcaro, investigado na Operação Compliance Zero. Uma das matérias tinha o título "Em áudio, Nikolas chama Vorcaro de 'lindão' e pede liberação de ativo de minério". Horas depois, o deputado compartilhou em suas contas oficiais no Instagram e no X, que somam mais de 27 milhões de seguidores, um documento que, segundo a representação dos deputados, simulava uma conclusão da PF de que não haveria indícios de crimes envolvendo os dois. Segundo o Metrópoles, a PF negou ter produzido o material. Nikolas afirmou depois que desconhecia a falsidade do documento, disse ter reproduzido conteúdo publicado por terceiros e removeu a postagem.
Reações e desdobramentos
Em vídeo nas redes sociais, Nikolas comemorou a decisão. "Por que isso é uma vitória? Obviamente colocaram de forma falsa na manchete para induzir uma relação que nunca tive com Vorcaro", declarou o congressista, para quem "quem mente na campanha responde na Justiça". A jornalista Juliana Dal Piva, autora da reportagem, disse em publicação nas redes que foi "censurada" pela decisão e lembrou que, em 2022, foi alvo de pedido de censura de Flávio Bolsonaro por causa da reportagem sobre os 51 imóveis. "Quem censura quem mesmo?", escreveu. O Poder360 informa que procurou o ICL Notícias e a repórter e não obteve resposta até a publicação.
A representação na PGE é assinada pelos deputados Rogério Correia (PT-MG), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Alencar Santana (PT-SP). Eles sustentam que o caso pode configurar uso indevido dos meios de comunicação social e abuso de poder político, pedem a cassação do registro ou do diploma do parlamentar e a apuração de possíveis crimes eleitorais ligados à falsificação e ao uso do documento. Um laudo anexado ao pedido aponta divergências de conteúdo, datas, estrutura e identificação em relação a um relatório de 218 páginas produzido pela PF, além da ausência de assinatura, matrícula de servidor, número de procedimento e código verificador.
Na Justiça Eleitoral de Minas, o ICL Notícias tem o prazo de um dia para apresentar defesa; em seguida, o Ministério Público Eleitoral terá igual prazo para se manifestar, e a liminar ainda será analisada no mérito. Cabe agora à PGE decidir se abre a investigação eleitoral pedida pelos deputados e se ajuíza ação no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Não há data definida para essas etapas.