A Polícia Federal afirma, em relatórios enviados ao STF (Supremo Tribunal Federal), que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro custeou viagens e jantares internacionais dos dois servidores do Banco Central afastados do cargo sob suspeita de favorecer o Banco Master. Segundo a Folha de S.Paulo, que teve acesso aos documentos após o fim do sigilo decretado na noite de quinta-feira (10), Vorcaro teria pago parte de uma viagem do ex-chefe de Supervisão Bancária, Belline Santana, e da esposa dele a Paris, além de despesas do ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza em viagem à Disney, nos Estados Unidos.
Sobre a passagem por Paris, o relatório da PF diz que Vorcaro organizou a programação do casal e manteve contato direto com prestadores de serviço no exterior:
"Tratou diretamente com prestadores de serviços no exterior sobre reservas de restaurantes, recepção e logística, chegando inclusive a encaminhar o contato pessoal do servidor para que a programação fosse finalizada"
Em mensagens citadas no documento, o ex-banqueiro orientou que fosse organizado um jantar no restaurante Lapérouse e um almoço no Loulou. Para a PF, a indicação de que deveriam ser pedidos bons vinhos e comida sugere que as contas ficariam por conta dele. O relatório registra que Belline e a mulher viajaram a Paris no período das mensagens, mas não aponta outras despesas pagas nem os valores.
Em depoimento à PF no dia 24 de agosto, ouvido como testemunha, o empresário Leo Serrano, dono da agência de viagens Signature Luxury, afirmou que Vorcaro pagou US$ 38 mil por um "guia vip" que acompanhou Paulo Sérgio pelos parques da Disney e da Universal, em Orlando, em janeiro de 2024. Segundo o Valor Econômico, que teve acesso à íntegra do depoimento, a empresa arcou com o valor e depois enviou a fatura a Vorcaro. Sobre Belline, Serrano disse que nenhuma reserva solicitada para a viagem a Paris, em 2025, chegou a ser paga ou concretizada.
As defesas negam irregularidades. A de Paulo Sérgio, em nota do advogado Odel Antun, afirma que ele tem documentação de que custeou integralmente a viagem com a família e que só aceitou, no dia do embarque, uma vaga em pacote de acesso prioritário aos parques oferecida por Vorcaro, mediante pagamento de US$ 8 mil em espécie, por intermédio de pessoa indicada pelo ex-banqueiro. A de Belline, assinada pelo advogado Leonardo Palazzi, sustenta que "não houve qualquer prestação de serviços de turismo, logística ou concierge" a ele e criticou o vazamento do depoimento. Procurados pela Folha na madrugada desta sexta (11), os advogados não responderam até a publicação.
Como o caso chegou ao STF
Belline e Paulo Sérgio foram afastados do Banco Central e são investigados sob suspeita de terem recebido propina para favorecer os interesses do Master enquanto atuavam na fiscalização do extinto banco de Vorcaro. A apuração integra a Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro ligado ao Master, e alcançou o STF porque envolve acusações contra parlamentares e contra o ministro Alexandre de Moraes.
- 1º de setembro: o relator do caso, ministro André Mendonça, levanta o sigilo de relatório da PF com indícios de que Vorcaro pediu conselhos e trocou informações com Moraes.
- 3 de setembro: Moraes retira o sigilo de relatórios da inteligência da PF sobre supostas condutas irregulares de Mendonça.
- 9 de setembro: o presidente do STF, ministro Edson Fachin, tira de Moraes a relatoria do Inquérito das Fake News e marca sessão plenária para o dia 15.
- 10 de setembro: a pedido de Fachin, Mendonça levanta o sigilo da Petição 15.556, núcleo original da operação, e de outros procedimentos vinculados.
O próximo passo está marcado para a terça-feira (15), quando o plenário do STF analisa o relatório da PF que aponta Moraes como interlocutor de Vorcaro e o pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República) de anulação do documento. Ninguém foi condenado e todos os citados têm direito à presunção de inocência.