Uma empresa criada com R$ 100 de capital social, sem funcionários e sem movimentação bancária efetiva, foi usada pelo Banco Master, do fundador Daniel Vorcaro, para simular a origem de R$ 7,155 bilhões em empréstimos consignados. A conclusão é da perícia da Polícia Federal, em relatório detalhado pelo G1 neste sábado (12) e pelo Poder360 na sexta-feira (11). Segundo a PF, o dinheiro das cessões nunca chegou à empresa: os valores eram registrados internamente pelo próprio banco, que lançou no seu sistema mais de 1 milhão de contratos atribuídos à companhia.
A empresa nasceu em 1º de outubro de 2024 como SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., com R$ 100 de capital, dos quais apenas R$ 10 foram integralizados, R$ 5 de cada sócio fundador, Daniel Moreira Bezerra e Katia Caroline Cunha Silva. Em dezembro de 2024, mudou de nome para Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A., passou a ter como atividade formal a promoção de crédito e teve o capital declarado elevado para R$ 30 milhões, a serem integralizados em até 12 meses por Henrique S. S. Peretto. A perícia afirma não ter encontrado evidência ou documento de que os R$ 30 milhões tenham sido pagos.
Entre 24 de dezembro de 2024 e 14 de maio de 2025, Master e Tirreno assinaram 28 contratos de cessão de crédito somando R$ 7,155 bilhões. Vinte e cinco deles, cerca de R$ 5,96 bilhões, foram firmados antes de as alterações de nome, atividade e administração serem registradas na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), o que ocorreu em 15 de abril de 2025. André Felipe de Oliveira Seixas Maia assinou os 28 contratos em nome da empresa, embora só tenha passado a constar formalmente como diretor depois. As firmas de um lote de 26 contratos, de R$ 6,34 bilhão, foram reconhecidas em cartório de uma só vez, em 13 e 14 de maio de 2025. A PF classificou o achado como formalização cartorária tardia e pediu validação da cadeia documental.
A investigação identificou padrões incomuns nos contratos, empregadores com inconsistências cadastrais e produção de documentos em escala dentro da própria estrutura do Master. Em 22 de maio de 2025, quando o banco pediu dados cadastrais da Tirreno, faturamento, patrimônio líquido, clientes e fornecedores vieram zerados ou em branco. A primeira conta corrente da empresa só foi aberta em 23 de maio, no próprio Master, e permaneceu sem saldo e sem movimentação, segundo a PF.
Repasse ao BRB e "fábrica de documentos"
Os créditos foram depois revendidos ao Banco de Brasília (BRB), que comprou as carteiras sem checagem adequada no início e só mais tarde passou a exigir documentos, segundo a corporação. Em 23 de junho de 2025, Seixas Maia enviou ao BRB um link de armazenamento com 1.785 kits documentais sobre as cobranças. Em 4 de julho, o comitê de prevenção à lavagem de dinheiro do Master decidiu dar baixa nos alertas de irregularidade e não comunicar o Coaf, o órgão que recebe suspeitas de operações financeiras. Em outubro de 2025, os créditos atribuídos à Tirreno representavam 64% de todos os recebíveis de consignados administrados pelo Master no sistema Função 13.
Segundo o G1, a PF também descreveu uma "fábrica de documentos" montada por funcionários do banco. Uma apresentação em PowerPoint encontrada em um HD corporativo, entregue pelo liquidante do Master em 27 de novembro de 2025, detalha a extração de dados reais de clientes do programa CredCesta, o processamento em softwares dedicados e a geração industrial de Cédulas de Crédito Bancário, termos de consentimento e procurações, com retirada de datas e de páginas de assinatura. As constatações integram a Informação de Polícia Judiciária de Análise nº 1390980/2026, concluída em 23 de março de 2026.
O que dizem as partes
A PF classificou a operação como "completamente atípica". Segundo o Poder360, o presidente do BRB disse em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a Tirreno nunca recebeu os recursos, versão que, de acordo com a corporação, é corroborada por Vorcaro, investigado no caso. Vorcaro teria admitido que a operação com a Tirreno foi cancelada e que o dinheiro não foi entregue nem à empresa nem ao BRB. "Como uma empresa que não recebeu valor algum (Tirreno) e teve a operação cancelada, pode ter se comprometido a recomprar carteiras no valor de 7 bilhões de reais", questiona a PF na representação.
A Sociedade de Crédito Direto Cartos, apontada pela PF como controladora da Tirreno, negou em nota ter relação contratual, comercial ou operacional com a empresa e afirmou que não originou, estruturou, comercializou, intermediou nem cedeu créditos do caso. O BRB não respondeu ao Poder360. O caso Master corre no STF sob a relatoria do ministro Edson Fachin, que marcou para 23 de setembro a sessão em que analisa pedidos ligados à investigação, segundo o G1. A apuração está em fase de inquérito e nenhum dos investigados foi condenado.