arrow_backVoltar
PoliticsFederal Policestforganized-crimefilm

PCC aparece em investigações sobre produtora de 'Dark Horse'; SP nega lacres violados

bookmark_borderSalvar
HBPor Henrique Barros•18 de setembro de 2026•Fontes: BBC Brasil, G1

O Primeiro Comando da Capital (PCC), considerada a maior facção criminosa do Brasil, é citado em decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), dentro das investigações que apuram suspeita de direcionamento de recursos públicos ao filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), segundo a BBC News Brasil. O elo apontado é o empresário Alex Leandro Bispo dos Santos, réu por feminicídio e apontado pela polícia como controlador da empresa Favela Conectada, subcontratada pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB). O instituto é comandado por Karina Ferreira da Gama, também proprietária da produtora Go Up, responsável pelo longa.

As menções à facção aparecem em duas decisões recentes de Dino, relator do caso no STF. Em 10 de setembro, ao determinar a Operação Make Up, da Polícia Federal, e unificar na PF e no STF as apurações sobre desvios de emendas parlamentares, o ministro citou "atos ligados" ao PCC e afirmou que, segundo "órgãos de inteligência da polícia", um dos investigados era integrante da facção. Segundo a BBC, o investigado era Alex Bispo. Em 13 de setembro, ao determinar a retirada do sigilo de documentos enviados pela Justiça de São Paulo, Dino escreveu que se fortalecia a hipótese de:

"Imbricação indissociável em um sofisticado esquema de destinação e desvio de recursos públicos [...] Essa organização alcançaria, inclusive, vínculos com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital), consoante linha investigativa mencionada nos autos."

A suspeita de pertencimento de Alex ao PCC não nasceu na apuração sobre o filme. Ela aparece primeiro no inquérito pelo feminicídio de Maria Katiane Gomes da Silva, de 25 anos, morta após cair do 10º andar de um prédio na Vila Andrade, zona sul de São Paulo, em 29 de novembro de 2025. O Ministério Público denunciou o empresário pelo crime e o Tribunal de Justiça recebeu a denúncia, tornando-o réu. Em áudio gravado por um vizinho antes da morte e transcrito no relatório da Polícia Civil, Alex diz: "Tenho escorpião do PCC, não devo satisfação". Os investigadores destacaram ainda as tatuagens de escorpião, carpa e dragão do empresário e escreveram que a combinação dos símbolos reforça "a ideia de um membro que superou grandes desafios" dentro da facção.

O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco de Presidente Prudente, afirmou ao g1 que Alex tem extensa ficha criminal e cumpriu pena em duas unidades prisionais onde estão detidos integrantes da cúpula do PCC, os presídios de Mirandópolis e Presidente Venceslau, no oeste paulista. Levantamento do g1 no arquivo do Conselho Nacional de Justiça mostra que ele é citado em mais de 60 processos judiciais, o que não significa que seja réu em todos. Procurada pela BBC, a defesa de Alex negou que ele faça parte do PCC ou de qualquer organização criminosa.

Como o caso chegou até aqui

  • Junho de 2024: o ICB firma com a Prefeitura de São Paulo, na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), contrato para instalar wi-fi gratuito nas periferias; o g1 informa R$ 108 milhões por ano, e a Polícia Civil calcula R$ 157 milhões no total.
  • Novembro de 2025: morte de Maria Katiane Gomes da Silva; a Favela Conectada, de Alex, já havia instalado mais de 900 pontos de internet e recebido mais de R$ 3,8 milhões.
  • Dezembro de 2025: os portais The Intercept Brasil e Metrópoles revelam os contratos entre o ICB e a empresa de Alex.
  • Janeiro de 2026: o controle da Favela Conectada passa a Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que mora no mesmo endereço de Alex, segundo a Jucesp; a empresa é renomeada Urban Connect.
  • Junho de 2026: a Operação Wi-Fi, da Polícia Civil, cumpre mandados em endereços ligados a Karina e apreende 27 aparelhos.
  • Setembro de 2026: Dino determina a Operação Make Up, da PF, unifica as investigações e cita o PCC; no dia 13, retira o sigilo de documentos.

O contrato previa 5 mil pontos de wi-fi gratuito nas periferias até junho de 2025, mas apenas 3.200 foram instalados, e ao menos três aditivos mudaram o prazo, segundo o g1. O primeiro contrato entre o ICB e a Favela Conectada foi de R$ 12 milhões, assinado logo depois de a ONG ser contratada pela prefeitura, embora não tivesse experiência no serviço e terceirizasse a instalação.

Lacres de 27 aparelhos e a resposta do governo de SP

Os documentos liberados por Dino detalharam um impasse sobre a cadeia de custódia dos 27 aparelhos apreendidos na Operação Wi-Fi, em 1º de junho: 9 notebooks, 5 celulares e 13 pen drives. Em ofícios de 3 de junho, a perita criminal Viviane Menezes recusou os materiais e escreveu que as embalagens "apresentam vão suficiente para entrada de cabo de alimentação e transferência de dados, sendo possível a manipulação dos dados no interior do equipamento". Cinco dias depois, os aparelhos foram devolvidos à 2ª Delegacia de Investigações Sobre Crimes Contra a Administração Pública para "readequação dos invólucros" e, relacrados, aceitos pela perícia. Segundo o g1, os autos não registram se foi apurada a integridade dos dados.

Nesta segunda-feira (14), a Secretaria da Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), comandada pelo delegado Osvaldo Nico Gonçalves, negou que houve violação. "Não houve acesso, extração ou manipulação dos dados, tampouco comprometimento da cadeia de custódia", afirmou a pasta, que sustentou que os lacres estavam íntegros, que algumas embalagens apresentavam "pequenos espaços" e que a recusa inicial da perícia teve "caráter preventivo". A secretaria acrescentou que "a fotografia utilizada pela imprensa não retrata os objetos apreendidos na operação".

Karina, alvo da Make Up junto com o deputado federal Mario Frias (PL-SP), roteirista e produtor-executivo do longa, negou à CNN Brasil, segundo a BBC, que o filme tenha recebido recursos de emendas parlamentares e relatou ameaças que atribui a pessoas com quem teve relações profissionais e pessoais. As apurações sobre emendas e sobre o contrato municipal seguem unificadas na Polícia Federal, sob relatoria de Dino no STF. Alex permanece preso preventivamente desde fevereiro e é réu no processo de feminicídio, que corre na Justiça de São Paulo.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Faça login para comentar. Entrar