A Polícia Federal encontrou no celular do banqueiro Daniel Vorcaro uma minuta de contrato, datada de março de 2024, que previa pagamentos de até R$ 427 milhões do Banco Master ao escritório de advocacia Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos, da advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A apuração foi publicada pelo Metrópoles nesta segunda-feira (22) e confirmada pelo g1.
O contrato tratava da atuação do escritório em processos ligados a precatórios da indústria sucroalcooleira, com honorários de 5% líquidos sobre o valor recebido pelo banco em cada ação. Segundo o g1, as causas somavam R$ 8,5 bilhões e, em caso de vitória integral, os honorários poderiam chegar a R$ 427 milhões. Trata-se de minuta de prestação de serviços; a reportagem não informa se o contrato foi efetivado.
Mensagens com o desembargador
Depois da formalização da minuta, Vorcaro mandou mensagem a Newton para lembrá-lo de um "julgamento dia 4 [de dezembro]" de interesse do banco e recebeu como resposta "lembrei" e "tudo certo", segundo a reportagem. Em 3 de junho de 2025, a PF identificou uma mensagem de Camilla ao banqueiro comemorando uma vitória das usinas no Supremo Tribunal Federal (STF), com elogio ao voto do ministro Kassio Nunes Marques, e uma tentativa de marcar encontro com o desembargador para "falar rapidamente".
"Grande vitória hoje para as Usinas na 2a Turma do STF! Placar 3x2 a favor das Usinas, para não aplicar o Tema 826. E um excelente voto do Min Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização", escreveu Camilla Ramos.
A investigação aponta que Camilla e Newton integrariam a "Turma KN", expressão usada por assessores de Vorcaro para o grupo de pessoas ligadas a Nunes Marques, cujas iniciais "KN" seriam do ministro. Em 20 de fevereiro de 2025, o operador de viagens do banqueiro avisou que a "turma do KN/Newton" havia enviado seis nomes para entrar na lista de um camarote do Carnaval do Rio de Janeiro bancado por Vorcaro. As mensagens indicam ainda que o Carnaval de 2025 de Newton e do grupo, com hospedagens nos hotéis Fasano de Salvador e do Rio, foi organizado e pago pelo banqueiro. Em maio de 2025, dias antes de o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovar a venda do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB), uma assistente de Vorcaro repassou um pedido do desembargador de "tarifa promocional" para o ministro Nunes Marques se hospedar no Fasano. "Pode pegar e colocar na minha conta", respondeu Vorcaro, segundo o g1. Em outros momentos, o desembargador pediu ao banqueiro ingressos para um show em um hotel de São Paulo e para a Fórmula 1.
Defesa e próximos passos
Nunes Marques disse, em nota, que "nunca autorizou ninguém a falar em nome dele". A reportagem do g1 não registra nota de defesa do desembargador Newton Ramos, da advogada ou do escritório. Ninguém citado foi condenado; as mensagens integram investigação em curso e os nomes envolvidos são, até agora, apenas investigados ou citados em conversas apreendidas.
Para quem chega agora ao caso: o Banco Master comprou em 2023 o direito de receber precatórios, dívidas da União reconhecidas pela Justiça, por meio de fundos de investimento administrados por empresas investigadas na Operação Compliance Zero. A suspeita é de que parte dos precatórios foi expedida antes do fim dos processos, quando a União ainda podia recorrer. As mensagens de Vorcaro alimentaram uma crise no STF: em 15 de setembro, a corte começou a analisar relatório com conversas do banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, e Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declarou-se impedido de votar na sessão por receio de impacto eleitoral. Segundo a Folha de S.Paulo, o afastamento veio depois de diálogos citarem pagamentos a seu filho, o advogado Kevin Marques, e o ministro avalia voltar a participar dos julgamentos sobre o Master após as eleições de outubro, ainda sem data definida.