A Polícia Federal aponta que o ex-governador do Rio Cláudio Castro obteve vantagens diretas de um esquema de lavagem de capitais ligado ao grupo Refit, a antiga Refinaria de Manguinhos. As conclusões estão na decisão da segunda fase da Operação Sem Refino, cujo sigilo foi retirado nesta quinta-feira (3) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre as vantagens listadas estão R$ 10,5 mil em caviar pagos por empresa de um terceiro, a posse de fato de uma mansão em Petrópolis, na Região Serrana, e o aluguel subfaturado da cobertura onde o ex-governador vive na Barra da Tijuca. Castro é investigado, não foi condenado, e sua defesa nega irregularidades.
O inquérito descreve uma estrutura de ocultação de patrimônio montada com "laranjas" e empresas de terceiros para quitar despesas do ex-governador e blindar bens de luxo. O grupo Refit é controlado pelo empresário Ricardo Magro, considerado um dos maiores devedores de impostos do país, segundo o g1. Magro teve prisão preventiva decretada pelo STF em maio, na primeira fase da operação, está foragido e figura na lista de difusão vermelha da Interpol. Dados extraídos de celulares apreendidos indicam ainda que Castro e secretários mantinham canais diretos de comunicação para agilizar licenças ambientais e perseguir empresas concorrentes.
O episódio do caviar
Segundo mensagens citadas na decisão, Castro negociou pessoalmente a compra de diferentes tipos e gramagens de caviar com um fornecedor e pediu que parte das iguarias fosse entregue em uma suíte do Hotel Emiliano, em São Paulo, onde estava hospedado em 24 de abril de 2026. O valor final, após descontos, ficou em R$ 10.500. Embora tenha dito ao vendedor que enviaria o comprovante do PIX, a análise bancária mostrou que o pagamento partiu da conta da AC Santos Participações e Empreendimentos, do advogado Antonio Carlos da Conceição Santos, o "Pipo", apontado pela PF como operador central do esquema de lavagem. Para os investigadores, o episódio é prova objetiva do uso de terceiros para pagar gastos incompatíveis com os rendimentos lícitos do ex-governador.
Mansão na Serra e cobertura na Barra
Em Petrópolis, a PF sustenta que Castro usufruía de fato de um imóvel de luxo no condomínio Locanda Residenze, registrado em nome da Concrecasa Construções Inteligentes. A administradora da empresa, Carolina Gonçalves Xavier Pereira, tem vínculos societários com o empresário Luiz Fernando Gomes, cuja Enge Prat Engenharia e Serviços assinou 11 contratos com o governo estadual na gestão Castro, um total de R$ 355,2 milhões, dos quais R$ 49,6 milhões sem licitação. Na decisão, Castro aparece gerindo rotinas de segurança, recebendo faturas de energia elétrica no celular e coordenando reformas que chamava de "minha obra", incluindo uma adega climatizada orçada em R$ 245 mil, cujo arquivo trazia nos metadados o título "AP Adega Claudio Castro". Segundo o O Globo, entre janeiro de 2024 e o início deste ano o então governador usou ao menos 24 vezes o helicóptero oficial para viagens de fim de semana a Petrópolis.
Na Barra da Tijuca, o ex-governador reside sob contrato de R$ 10 mil mensais com a J3 Real Estate, valor inferior à média de mercado estimada pela PF, entre R$ 25 mil e R$ 29 mil. A empresa foi criada 50 dias antes de comprar a cobertura por R$ 3,48 milhões, tem o imóvel como único ativo e só abriu a primeira conta bancária três anos depois da transação. Mensagens apreendidas mostram ainda Castro e a esposa coordenando detalhes da obra, como o guarda-corpo de vidro da piscina, meses antes da mudança, o que, segundo os investigadores, contradiz a versão da defesa de que ele não participou das intervenções no imóvel.
Linha do tempo e a defesa
A primeira fase da Sem Refino foi deflagrada em maio, quando Moraes autorizou buscas contra Castro e outros investigados e decretou a prisão preventiva de Magro. A segunda fase ocorreu em 14 de agosto, com 16 mandados de busca e apreensão expedidos pelo STF; além de Castro, foram alvos o ex-secretário estadual de Ambiente Bernardo Rossi e o ex-secretário de Transformação Digital José Mauro Farias Junior. Na ocasião, a PF afirmou apurar "fraude na concessão de licenças ambientais para a refinaria, à revelia das diretrizes dos órgãos técnicos competentes", além de lavagem de capitais. Dias antes, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) havia revogado a autorização de funcionamento da Refit.
As defesas divergem da leitura da PF. O advogado Carlo Luchione afirmou ao O Globo que a cobertura da Barra é alugada e negou que tenha passado por grande reforma. Sobre a casa de Petrópolis, os advogados dizem que o imóvel não tem mais qualquer ligação com o ex-governador, que alega tê-lo ocupado entre outubro de 2023 e o início deste ano por contrato regular de locação. O g1 informou que busca contato com Castro e que não havia resposta divulgada até a publicação.
Os próximos passos correm no STF. O inquérito segue sob relatoria de Moraes, a PF continua a análise do material apreendido e eventuais acusações formais dependem de denúncia da Procuradoria-Geral da República ao Supremo. Nenhuma data está definida.