O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como "Mineiro" e delator do caso Banco Master, aparece como "ganhador" em 570 comunicações sobre apostas e prêmios registradas entre janeiro de 2020 e junho de 2025, em operações que somam R$ 176,4 milhões, aponta o Ministério Público de São Paulo. Os dados sustentaram mandados de busca e apreensão cumpridos nesta quinta-feira (24) na terceira fase da Operação Carbono Oculto, batizada Crédito Oculto, conduzida pelo Gaeco com apoio da Receita Federal. Freixo é investigado por lavagem de dinheiro e não foi denunciado nesta fase da operação.
Segundo o g1, as comunicações sobre prêmios e apostas chegaram ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por apresentarem sinais considerados atípicos, e Freixo figura em todas as 570 ocorrências na condição de "ganhador". Os promotores apontam um padrão de triangulação: terceiros fariam os jogos, mas os prêmios seriam transferidos diretamente para contas de empresas ligadas ao empresário, como a Cactus Assessoria e Serviços Ltda. Para o MP, a frequência incomum das premiações, o volume movimentado e o uso de casas lotéricas indicam que os registros poderiam servir para dissimular a origem de recursos, em vez de representar ganhos por sorte. As loterias não são investigadas nem integram o suposto esquema.
"Descortinou-se para além de atos característicos de lavagem de capitais, uma rede de estruturação financeira fraudulenta envolvendo prêmios e apostas, aparentemente, com o intuito em lavar dinheiro dos seus clientes", escreveram promotores do Gaeco na representação à Justiça, citada pelo InfoMoney.
Linha do tempo do caso
Freixo ficou conhecido nas investigações do Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, extinto no rastro das apurações. Em agosto, ele fechou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República, homologado em setembro pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Na delação, detalhou operações financeiras com Vorcaro, entre elas repasses ao fundo que financiou o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, segundo o InfoMoney. Sua holding, a Entre Investimentos, já havia sido liquidada pelo Banco Central em março, na esteira da Operação Compliance Zero, que investigou fraudes no Master. Freixo começou a trabalhar aos 14 anos como office-boy, passou pelo mercado financeiro e fundou o Grupo Entre em 2016.
A ligação com os combustíveis
Na fase atual, a investigação o descreve como líder do Grupo Entre Investimentos e um dos principais prestadores de serviços de blindagem financeira e lavagem de capitais para a organização criminosa atribuída a Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e a Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", ambos foragidos e ligados ao setor de distribuição de combustíveis. O elo com esse mercado aparece por meio de empresas dele: a EntrePay recebeu R$ 166,5 mil da Ceopag, fintech que teria sido usada por empresas ligadas aos dois foragidos, e a Entre Investimentos repassou R$ 620 mil à Quimicolor, apontada como parte de uma estrutura de pagamentos envolvendo metanol desviado para adulteração de combustíveis. O g1 ressalva que a existência dessas transações não significa que Freixo tenha sido apontado como integrante da organização.
Segundo a Receita Federal, os mandados envolveram 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas em sete estados: 26 cumprimentos em São Paulo e um em cada um dos estados do Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina. A autorização foi do juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2ª Vara Criminal de Catanduva (SP), segundo o InfoMoney. Na coletiva de imprensa, o superintendente da Receita Federal afirmou que "existe uma indústria de fornecimento de estruturas financeiras para lavar dinheiro", nas palavras registradas por O Globo e pela UOL. O objetivo declarado da fase é desvendar estruturas de lavagem usadas para comprar uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país; segundo o órgão, uma usina sucroalcooleira teria recebido R$ 100 milhões que atravessaram contas de passagem em fintechs em poucos minutos.
O g1 informou que tentava localizar a defesa de Freixo para ouvi-lo sobre a operação, sem sucesso até a publicação desta reportagem. Como investigado, ele mantém a presunção de inocência. O próximo passo da apuração é a análise dos documentos e equipamentos apreendidos, e os promotores afirmam buscar esclarecer o contexto e a finalidade das movimentações. A colaboração premiada do empresário com a PGR, homologada em setembro, segue em vigor no STF.