Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal registram uma foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, segurando um charuto, diante de uma mesa com copos de uísque, ao lado do dono do Banco Master, em um clube privado de Londres. A imagem foi obtida pela Folha de S.Paulo, e a assessoria da PGR confirmou a autenticidade, sem comentar o conteúdo. Segundo o Valor Econômico, o advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, enviou a foto ao ex-banqueiro em 19 de junho de 2025, acompanhada da mensagem "PG me mandou", em referência às iniciais de Gonet.
Pessoas com conhecimento das investigações ouvidas pela Folha afirmam que o registro é de 25 de abril de 2024, durante uma degustação de uísque no clube privado George Club, no bairro de Mayfair, evento que teria sido custeado por Vorcaro. O Valor Econômico aponta que o banqueiro desembolsou R$ 3,2 milhões para promover a degustação privada do rótulo Macallan, que também contou com as presenças do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O que diz cada lado
Em manifestação enviada ao Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) na quinta-feira (17), Gonet negou ter amizade com Vorcaro e admitiu um único encontro presencial com o ex-banqueiro, em abril de 2024, durante o que descreveu como um evento jurídico público em Londres, com a participação de outras autoridades. As reportagens que revelaram a foto caracterizam a ocasião como uma degustação privada bancada pelo banqueiro.
"Não tenho com o Sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado."
Sobre uma ligação de 15 de março de 2025 citada em relatórios da PF, o procurador-geral afirmou que foi uma "breve saudação", a pedido de Soares, sem assunto relevante e anterior a qualquer ciência sua de atividades ilícitas. Ele também disse que Soares lhe foi apresentado "como bem-sucedido advogado e empresário". A assessoria de Soares afirmou que a foto "é de um evento de 2024, quando não havia nenhuma investigação sobre o empresário Daniel Vorcaro" e que "não há qualquer irregularidade na foto". Já a assessoria da PGR lembrou à Folha que o ministro André Mendonça, do STF, reconheceu que "não há nada demais nas menções ao procurador-geral".
Como o caso chegou até aqui
As mensagens entre Soares e Vorcaro integram o material apreendido pela PF nas investigações sobre o Banco Master, em que Vorcaro, hoje preso preventivamente, é investigado. Segundo apontou a PF, a interlocução entre Gonet e o banqueiro começou por meio de Soares em abril de 2024, quando o advogado escreveu "Amizade é tudo viu irmão" e, na sequência, "Gonet é firme", em conversas que tratavam inicialmente de Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais. Em 2025, os dois tratavam da segunda edição de um fórum jurídico em Londres patrocinado pelo Master, depois cancelado. Nas trocas de mensagens, Soares repassou a Vorcaro uma comunicação atribuída a Gonet sobre o encontro: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Vorcaro respondeu agradecendo o carinho e acrescentou: "vamos marcar de estar juntos".
- 25 de abril de 2024: degustação de Macallan no George Club, em Mayfair, bancada por Vorcaro; a foto registra Gonet ao lado do banqueiro.
- 15 de março de 2025: ligação breve entre Gonet e Vorcaro, admitida pelo procurador em manifestação ao CSMPF.
- 19 de junho de 2025: Soares encaminha a foto a Vorcaro com a mensagem "PG me mandou".
- 15 de setembro de 2026: o STF adia a discussão sobre o relatório da PF que cita Gonet e Moraes, após pedido de vista do ministro Flávio Dino.
- 17 de setembro de 2026: Gonet nega amizade com Vorcaro em manifestação ao CSMPF; no dia seguinte, Folha e Valor publicam a foto e detalhes das conversas.
As mensagens vieram a público quando o ministro André Mendonça, do STF, encaminhou à Corte um relatório da PF que também menciona Moraes e pediu que o caso fosse levado ao plenário, que deve avaliar se autoriza ou não uma investigação do magistrado. Citado no documento, Gonet defende a nulidade do relatório, por ter sido produzido a pedido de Mendonça sem solicitação prévia do Ministério Público ou da PF, e lembra que a lei exige autorização do plenário do STF para investigar integrante da Corte.
O próximo passo é o retorno do tema ao plenário do STF, ainda sem data definida. Em paralelo, a manifestação de Gonet sobre sua relação com Vorcaro permanece sob exame no CSMPF.