A Polícia Federal adiou para esta sexta-feira (28) o depoimento de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, no inquérito que apura se servidores do Banco Central receberam vantagens indevidas para beneficiar a instituição. A oitiva estava marcada para esta quinta (27), mas um problema técnico impediu a realização, segundo o g1 e a Folha de S.Paulo. Preso preventivamente desde março na penitenciária conhecida como Papudinha, no Distrito Federal, Vorcaro deporia por videoconferência.
Segundo a Folha, seria o primeiro depoimento do ex-banqueiro desde a recusa de duas propostas de colaboração premiada e o primeiro com a atual equipe de defesa, liderada pelos advogados Sérgio Leonardo e Daniel Bialski. Pessoas ligadas à defesa disseram ao g1 que a expectativa é que Vorcaro apresente sua versão sobre os fatos investigados. Vorcaro é investigado no inquérito e não há condenação contra ele neste caso. Em nota citada pela Folha, a defesa informou que aguardou o restabelecimento do sinal para que a oitiva ocorresse.
As suspeitas sobre os servidores
O foco do inquérito são os ex-supervisores do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana. Segundo a PF e o próprio BC, há suspeitas de que os dois tenham recebido vantagens financeiras e atuado para favorecer o Master em discussões internas sobre fiscalização e socorro financeiro, no período em que o banco enfrentava uma crise de liquidez que culminou na liquidação da instituição pelo Banco Central.
Em depoimento prestado à PF em maio, ao qual a TV Globo teve acesso, o diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, relatou que os dois servidores resistiam ao aprofundamento da fiscalização sobre carteiras de crédito do Master que, segundo uma equipe técnica do próprio BC, não existiam. Aquino disse ter sido informado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, de relatos recebidos sob anonimato sobre pagamentos ligados a Vorcaro. Questionado, Bellini afirmou, segundo o relato de Aquino, que recebeu duas parcelas de R$ 500 mil e, depois, pagamentos mensais por meio de uma empresa criada por ele, em contrato que atribuiu a projetos sociais. Paulo Sérgio, por sua vez, disse ter vendido uma propriedade rural em Guaxupé (MG) por R$ 4,5 milhões e afirmou ter descoberto apenas mais tarde que o comprador tinha ligação familiar com Vorcaro.
Entre as mensagens analisadas pela PF está uma enviada por Paulo Sérgio a Vorcaro em abril de 2025: "o Ailton achou muito boa, ou seja, 5 bi pode evitar estrago de 58 bi". Segundo Aquino, a conversa tratava de uma possível linha de liquidez do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para o Master.
Linha do tempo do caso
- 2023: Bellini diz ter sido procurado por uma pessoa ligada ao advogado Leonardo Palhares com uma proposta relacionada a projetos sociais.
- Início de 2025: o BC passa a desconfiar das operações bilionárias de cessão de crédito do Master ao Banco de Brasília (BRB), apesar da dificuldade de liquidez da instituição.
- Novembro de 2025: Vorcaro é preso na primeira fase da Operação Compliance Zero e solto dias depois, por decisão do TRF-1.
- Janeiro de 2026: Galípolo informa Aquino sobre os relatos anônimos de pagamentos aos servidores.
- Março de 2026: Vorcaro é preso preventivamente e permanece custodiado desde então.
- Maio de 2026: Aquino presta depoimento à PF detalhando as suspeitas.
O próximo passo é a oitiva remarcada para esta sexta-feira (28). Depois do depoimento, caberá à PF decidir se encaminha novas diligências ou conclui o inquérito sobre o suposto favorecimento, que ainda não resultou em denúncia do Ministério Público Federal nesta frente da investigação.