Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que a lobista Roberta Luchsinger pediu a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que interviesse para viabilizar negócios de interesse de Antônio Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, junto ao Ministério da Saúde. A revelação é do repórter José Marques, da Folha de S.Paulo, que teve acesso a material sigiloso que integra a investigação preliminar e a representação da PF enviadas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro autorizou a abertura de inquérito por suspeita de tráfico de influência. Nenhum dos contratos discutidos nas conversas chegou a ser assinado.
Os diálogos giram em torno da tentativa de venda ao ministério de substâncias derivadas de canabidiol e de kits para teste de dengue. Segundo a PF, Roberta procurava uma "solução para capitalizar" o Careca do INSS e pressionava o então secretário-executivo da Saúde, Swedenberger do Nascimento Barbosa, o Berger. "[Temos que] correr para o Berger comprar isso logo", escreveu ela sobre os kits de dengue. A PF registrou ainda que a lobista dizia ter prazo porque "Fábio vai embora", em referência à mudança de Lulinha para a Espanha, em 2025.
A cronologia das mensagens
- Março de 2024: em mensagem a Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, Roberta escreve, sobre Berger: "Mas vc vai pra cima dele pq eu fiz Gustavo investir lá na empresa do canabidiol rsrs".
- Maio de 2024: ela afirma a Marcola que eles têm "q colocar o Fábio em cima do berger rsrs". Marcola responde: "blz".
- Outubro de 2024: cinco meses depois, a lobista e Marcola combinam um churrasco, e ela pede que ele leve Berger, a pedido de Lulinha.
- Novembro de 2024: "Fabio ta la em Portugal e acordou lá hoje me pedindo pra falar com vc pra vc fazer uma pressão no Berger dos pedidos", escreve ela a Marcola.
- 23 de janeiro de 2025: em mensagens a Gustavo Gaspar, ex-assessor do senador Weverton Rocha (PDT-MA), Roberta diz que o Careca do INSS pressionava para fechar os negócios logo, que havia comentado o assunto com Lulinha e que seria bom "o Fábio se mexer". Para a PF, "as demandas solicitadas por Antônio dependem da intervenção de Fábio".
O Careca do INSS foi um dos principais alvos da operação Sem Desconto, que investiga um esquema suspeito de desviar dinheiro de aposentados e pensionistas da Previdência Social por meio de descontos ilegais em benefícios. Gaspar também foi preso na operação e cumpre prisão domiciliar. A revista Veja, que teve acesso à íntegra dos inquéritos após a quebra do sigilo telemático de Roberta por ordem de Mendonça, informou que a PF concluiu que a lobista mantinha uma sociedade informal com Lulinha e com o empresário Fernando Bittar para prospectar negócios no governo. "Eu sou o Fábio", resumiu ela a um empresário interessado, segundo a polícia. A PF trata as descobertas como indícios de corrupção, organização criminosa, tráfico de influência, advocacia administrativa e exploração de prestígio. Todos os citados são investigados, e não há denúncia formal ou condenação até o momento.
O que diz a defesa
O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que representa Lulinha, afirma que ele "nunca, em nenhum momento, fez nenhuma intervenção e nenhuma reunião" em favor de negócios do Careca do INSS. "Nos autos, não tem nada que desminta isso. O que a Polícia Federal tem é um quebra-cabeça de ilações, com inferências não conclusivas", disse o advogado. A defesa afirma ainda que Lulinha começou a preparar a mudança para a Espanha em 2024, mantém vínculos profissionais com uma empresa espanhola sem relação direta ou indireta com o governo brasileiro e vive "exclusivamente com o resultado do seu trabalho". As defesas de Roberta Luchsinger e de Antônio Camilo Antunes não responderam aos pedidos de comentário. A de Roberta já havia informado que não se manifestaria sobre inquérito que corre sob sigilo.
O inquérito tramita sob sigilo no STF, sem data conhecida para a próxima decisão. Caberá à PF concluir a apuração e, se entender que há elementos suficientes, enviar o relatório final ao Ministério Público Federal, que decidirá sobre eventual denúncia.