A Polícia Federal apontou, em representação enviada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), elementos que indicam que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atuou como "interlocutor direto" de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, nas tratativas de financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para a corporação, o senador aparece nas evidências em "cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento do andamento das gravações". O documento foi encaminhado em 8 de julho e teve o sigilo retirado na noite de quinta-feira (10), após decisão do presidente do STF, Edson Fachin.
Flávio é formalmente investigado no inquérito, instaurado em 22 de julho a pedido da própria PF, por suspeitas, ainda em tese, de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Segundo o G1, Vorcaro repassou R$ 61 milhões aos produtores por meio do fundo Havengate, nos Estados Unidos, e Flávio teria negociado um aporte de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na época. A produtora afirma ter gasto R$ 75,1 milhões com a obra. Além do senador, a PF lista Eduardo Bolsonaro, o deputado Mário Frias, o publicitário Thiago Miranda e outras três pessoas ligadas à produção entre aquelas cuja atuação precisa ser esclarecida.
Linha do tempo do caso
- Dezembro de 2024: mensagens extraídas do celular de Vorcaro registram agendamento de encontro com Flávio para tratar do "filme do presidente", com participação prevista de Mário Frias, idealizador do projeto.
- Agosto de 2025: a PF registra "interlocução direta" entre os dois, com mensagens que indicam encontro presencial no dia 20.
- Setembro de 2025: o senador envia áudio cobrando os pagamentos do filme; para os investigadores, ele demonstrava preocupação com o risco de inadimplemento perante o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.
- 22 de outubro de 2025: Flávio informa que o filme estava no terceiro dia de gravações e "no limite", e pede que Vorcaro o avise caso não consiga fazer o aporte, para que ele busque outro caminho com urgência.
- 7 de novembro de 2025: o senador envia vídeo ao banqueiro e diz que a produção só estava acontecendo por causa da ajuda dele.
- 16 e 17 de novembro de 2025: na véspera da fase ostensiva da Operação Compliance Zero, Flávio tenta contato telefônico com Vorcaro e envia mensagem; no dia seguinte, o banqueiro é preso ao tentar embarcar em jato particular com destino a Dubai.
"Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!"
A mensagem acima foi enviada por Flávio a Vorcaro em 16 de novembro, conforme transcreve a PF na representação.
Projeção de bilheteria e delação
Segundo o jornal O Globo, o plano de negócios da produção previa superar em mais de três vezes a bilheteria recorde de "Minha mãe é uma peça 3", e o UOL noticiou que a PF viu suspeita de lavagem de dinheiro nessa projeção de bilheteria recorde. A corporação também pediu ao STF a identificação dos beneficiários finais dos fundos Havengate Development Fund LP e Havengate Development Fund GP LLC.
A investigação ganhou novo material com o acordo de delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, firmado com a Procuradoria-Geral da República em 8 de agosto e homologado por Mendonça na quarta-feira (9). Segundo o G1, ele afirmou ter feito sete repasses, a título de "subscrições de cotas", ao fundo Havengate entre janeiro e setembro de 2025, a mando de Vorcaro, num total de US$ 12,333 milhões, cerca de R$ 62,8 milhões. O repasse de setembro, de US$ 1,666 milhão, contraria a versão de Flávio de que o último pagamento teria ocorrido em maio.
A defesa
Em Manaus, nesta sexta-feira (11), o senador defendeu o fim de todo o sigilo. "Para mim, a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto. Porque vão só confirmar o que eu sempre falei, que não tem nada de errado em relação ao filme", disse, segundo a Folha de S.Paulo. Ele também elogiou o relator do caso: "André Mendonça está certo. Ele está sendo juiz. Queria muito que todos do Supremo fossem iguais a ele, que não pesassem para lado nenhum. Investiga tudo, todo mundo, com transparência, mostra para a imprensa, para o povo".
Parte do inquérito segue sob sigilo porque envolve diligências em andamento, e a PF ainda pretende obter contratos, comprovantes de pagamento e instrumentos de câmbio do financiamento. Não há prazo divulgado para a conclusão, que depois será analisada pela Procuradoria-Geral da República. O desdobramento ocorre a menos de um mês do primeiro turno da eleição presidencial, em que Flávio é candidato.