A Polícia Federal detalhou, em documento que teve o sigilo retirado na noite de quinta-feira (10), as articulações do ex-banqueiro Daniel Vorcaro nos dias que antecederam a sua prisão na Operação Compliance Zero, núcleo do chamado caso Master. Segundo a corporação, Vorcaro tinha conhecimento da ação policial antes de ser detido, e é "improvável" que a viagem ao exterior na noite anterior ao cumprimento dos mandados "seja mera coincidência".
O material integra a Petição 15.556, procedimento central da investigação, liberado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. Ao todo, 14 procedimentos ligados ao caso Master deixaram de ser sigilosos, segundo o g1. Veja a linha do tempo do caso:
- 17/11/2025: Vorcaro é interceptado no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, quando embarcaria em jato particular com destino final aos Emirados Árabes.
- 18/11/2025: a PF deflagra oficialmente a Operação Compliance Zero, fase 1.
- Fim de novembro de 2025: o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) determina a soltura de Vorcaro e de outros quatro executivos do Banco Master.
- 27/02/2026: a PF assina novo pedido de prisão preventiva do banqueiro com base nos elementos agora públicos.
- Março de 2026: Vorcaro é preso novamente.
- 10/09/2026: o STF retira o sigilo dos autos principais do caso Master.
O que o documento aponta
Na reconstituição da PF, Vorcaro registrou em 21 de outubro de 2025, no aplicativo Notas do celular, os nomes de representantes da corporação que participaram de reunião reservada com o Banco Central, o que, para os investigadores, indica acesso antecipado a informações protegidas. Dois dias antes da operação, em 16 de novembro, anotou uma pergunta sobre eventual proximidade de um terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite, responsável por autorizar medidas contra ele. Como o inquérito era sigiloso, a PF vê nesse registro reforço à suspeita de vazamento.
Em 17 de novembro, véspera da deflagração, Vorcaro recebeu às 7h28 mensagens urgentes do advogado Walfrido Warde e mudou os planos: às 8h48 informou que agendaria voo saindo de Congonhas. A partir das 7h41 conversou com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem em preparo; depois das 11h recebeu o link da matéria, que mencionava inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília, e o repassou de imediato a Warde. No mesmo dia, o advogado protocolou petição na 10ª Vara Federal do DF pedindo acesso à investigação, citando a reportagem como fonte da informação.
O documento registra ainda que, desde as 6h34 daquele dia, Vorcaro mantinha contato com os servidores do Banco Central Paulo Sérgio e Belline, que consideraram "fundamental" uma conversa com o diretor da autarquia Ailton Aquino. A reunião virtual foi marcada para as 13h15 e, depois dela, circulou reportagem sobre a venda do Banco Master ao grupo Fictor, tratada pelos próprios servidores sem surpresa, o que, na leitura da PF, sugere alinhamento prévio. A corporação aponta também que o próprio Vorcaro teria divulgado à imprensa o interesse do Fictor na aquisição do banco.
Para a PF, "ciente da futura e iminente atuação policial", Vorcaro "se utiliza de servidores do Banco Central que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas) para forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial". As conclusões são da fase de inquérito e dependem de avaliação judicial; pela lei brasileira, investigado tem presunção de inocência até condenação definitiva. Na síntese do documento, os investigadores escreveram:
"Conclui-se pela existência de fortes elementos indicativos de condutas de Daniel Vorcaro e associados direcionadas a proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas, o que, somado às comunicações com autoridades e ao acompanhamento de procedimentos internos, compõe o retrato dos 'tentáculos' em estruturas públicas e privadas."
Crise no STF e próximos passos
Os elementos foram usados pela PF para embasar o novo pedido de prisão preventiva assinado em 27 de fevereiro de 2026, e Vorcaro voltou a ser preso em março. Na decisão do TRF-1 que determinou a soltura dele e dos executivos, cerca de dez dias depois da primeira prisão, um dos argumentos favoráveis à liberdade, segundo a PF, foi o teor da reunião realizada com o Banco Central.
O caso Master chega ao STF em meio à crise entre ministros da Corte. Um relatório da PF com mensagens entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, com sigilo retirado em 1º de setembro, mostra o banqueiro perguntando, em 15 de novembro de 2025: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Segundo a BBC News Brasil, o documento aponta indícios de que Vorcaro pediu conselhos e trocou informações com Moraes, que rebateu ao liberar relatórios da inteligência da PF sobre condutas atribuídas a Mendonça. O próximo passo está marcado para terça-feira (15), quando o plenário do STF analisa a validade do relatório da PF sobre Moraes e os rumos de eventual investigação contra o ministro.