O Ministério Público de Roraima (MPRR) denunciou à Justiça os pastores evangélicos Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, de 24, por crimes sexuais contra ao menos seis adolescentes em Boa Vista. A peça foi apresentada no dia 21 de agosto pela Promotoria de Justiça Especializada em Crimes contra a Dignidade Sexual, Crimes do Estatuto da Criança e do Adolescente e Estatuto do Idoso, e teve o conteúdo revelado pelo g1 nesta quarta-feira (26). O casal está foragido desde julho, quando a Justiça decretou a prisão preventiva dos dois.
Segundo a denúncia, as vítimas identificadas pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) têm entre 12 e 17 anos. O MP afirma que o casal seguia um padrão de abordagem: Wenderson fazia uma aproximação inicial cordial e "brincalhona", enquanto Arielly fazia convites e oferecia atenção às adolescentes. Depois, os dois isolavam as vítimas, distorciam passagens bíblicas para apresentar os abusos como se tivessem propósito espiritual e exploravam o temor reverencial das jovens à autoridade pastoral. O relatório da Polícia Civil aponta ainda que os investigados ofereciam dinheiro e outras vantagens para que o silêncio fosse mantido.
Wenderson foi denunciado por seis crimes: estupro de vulnerável, importunação sexual, favorecimento da exploração sexual de adolescente ou pessoa vulnerável, registro não autorizado de intimidade sexual, fraude processual e falsidade ideológica. Arielly foi denunciada por estupro de vulnerável, importunação sexual e fraude processual. O MPRR pediu a condenação dos dois e o pagamento de indenização por danos morais às vítimas: R$ 560 mil contra Wenderson e R$ 195 mil contra Arielly.
A cronologia do caso
- Agosto de 2021: a congregação comandada pelo casal tem a ata de fundação datada deste mês; a igreja foi formalizada em 2022 no bairro Cinturão Verde, zona Oeste de Boa Vista, com Wenderson na presidência e Arielly na vice-presidência.
- Abril de 2026: o representante de uma adolescente de 14 anos registra boletim de ocorrência; outras cinco vítimas procuram a polícia em seguida.
- 27 de abril: segundo o depoimento de uma vítima, o casal deixa Boa Vista levando dinheiro dos dízimos e das ofertas da igreja.
- 16 de julho: a Polícia Civil conclui o inquérito e indicia os dois, conforme revelou a CNN Brasil.
- Julho: a Justiça decreta a prisão preventiva do casal.
- 21 de agosto: o MPRR apresenta a denúncia à Justiça.
Ao longo do inquérito, a polícia identificou 11 possíveis vítimas, mas cinco delas optaram por não prestar declarações, segundo a CNN Brasil. Uma jovem de 20 anos também foi indiciada, sob suspeita de destruir provas no telefone de Wenderson, por fraude processual e corrupção de menores. Para a delegada Kamilla Basto, responsável pelas investigações, trata-se de um "caso desafiador", diante do "elevado grau de dissimulação dos investigados, que utilizavam justamente a confiança das vítimas como instrumento de dominação e silenciamento". Em reportagens anteriores, a polícia informou que o casal teria fugido para o Amazonas após as primeiras denúncias.
O g1 procurou a defesa dos pastores, mas não recebeu resposta até a última atualização da reportagem; a CNN Brasil também informou que tentava contato com os advogados do casal. Como a denúncia ainda não foi analisada pela Justiça, Wenderson e Arielly têm, neste momento, a condição de denunciados, e não de réus, e mantêm o direito à presunção de inocência.
O próximo passo do caso é a análise da denúncia pela Justiça de Roraima. Se o juiz responsável aceitar a peça do Ministério Público, o casal passará à condição de réu e será aberto o processo criminal, com audiências e fase de instrução. Não há data definida para essa decisão. Os mandados de prisão preventiva seguem em aberto, e os dois continuam foragidos.