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Quem é o miliciano Peixe, que intermediou emenda de Flávio Bolsonaro a ONG

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HBPor Henrique Barros•25 de setembro de 2026•Fontes: O Globo, Estadão, G1, Veja

Robson Calixto da Fonseca, o Peixe, ex-assessor do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão e condenado a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa do caso Marielle Franco, é apontado pela Polícia Federal como intermediário de uma emenda parlamentar de R$ 200 mil do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, a uma ONG investigada sob suspeita de desvio de dinheiro público. O jornal O Globo detalhou nesta sexta-feira (25) a trajetória do miliciano. A verba foi destinada em novembro de 2023 ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), para um projeto esportivo com crianças na Taquara, no Rio.

A negociação apareceu em mensagens de WhatsApp apreendidas no celular de Peixe durante a investigação do assassinato de Marielle e do motorista Anderson Gomes, mortos em 2018. Os diálogos foram revelados primeiro pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela revista piauí. Em 24 de outubro de 2023, Peixe escreveu a Maria de Fátima Bezerra Castro, a Fafá, secretária parlamentar do gabinete de Flávio no Senado descrita pela PF como "interlocutora direta" do miliciano: "Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar". Fafá pediu um ofício e, dois dias depois, convidou Peixe para um evento com a presença do senador, ao qual ele deveria levar o então deputado Chiquinho Brazão. "Você vai também e reforça o pedido com o senador", escreveu. Em 6 de novembro, Peixe cobrou: "Não esquece do Ifop não, vê se o senador consegue nos agraciar". Em 29 de novembro de 2023, a emenda de R$ 199.999,79 foi enviada ao Ministério do Esporte, que repassou o valor ao Ifop por termo de fomento ao projeto Jogadores do Futuro, que previa a compra de chuteiras. Em janeiro de 2024, já após o repasse, Fafá pediu ao miliciano quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador, segundo a PF.

Da Alerj à condenação no STF

Peixe é policial militar reformado. Foi assessor de Domingos Brazão na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e o acompanhou quando o político assumiu o TCE-RJ. Para a Procuradoria-Geral da República, funcionava como uma espécie de operador do grupo: geria negócios imobiliários irregulares e atuava como procurador informal e "laranja" dos irmãos Brazão. Na delação premiada do ex-policial Ronnie Lessa, que assumiu os disparos contra Marielle, Peixe é descrito como "homem de confiança" e "faz tudo" de Domingos, e teria conseguido a submetralhadora HK MP5 usada no crime, versão que ele nega. Relatos do Disque-Denúncia de 2018, citados em relatório da PF, o apontavam como responsável por recolher dinheiro de extorsões praticadas por milicianos na região da Taquara.

Os irmãos Brazão, condenados como mandantes do assassinato, foram presos em março de 2024. Peixe foi preso em maio daquele ano e julgado em fevereiro deste ano pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que o condenou a nove anos de prisão e à perda do cargo por organização criminosa armada. Diferentemente dos Brazão, ele não foi condenado pelos homicídios de Marielle e de Anderson. No voto, o ministro Alexandre de Moraes escreveu que ele atuava na construção de imóveis e loteamentos clandestinos, na extorsão, na grilagem de terras e na exploração de "gatonet", as ligações ilegais de TV a cabo.

Operação Emendatio e as defesas

O repasse entrou na mira da Operação Emendatio, deflagrada pela PF em julho com autorização de Moraes para apurar, junto com a Controladoria-Geral da União (CGU), suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa em emendas a entidades ligadas ao grupo Brazão. Segundo o O Globo, que revelou a investigação da emenda de Flávio em maio, organizações indicadas por Peixe a deputados e senadores receberam R$ 268 milhões entre 2020 e 2024. O Ifop recebeu ao todo R$ 2 milhões públicos, os únicos de sua história: os R$ 200 mil de Flávio, R$ 300 mil da deputada Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão de Chiquinho Brazão, liberados em 2025, já após a prisão do então deputado. Auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) de 2025 apontou que a empresa contratada para coordenar o projeto esportivo é uma sociedade individual de advocacia cujo responsável é o próprio presidente do instituto, e pais de alunos relataram que as chuteiras previstas não foram entregues. Flávio e Tonietto não foram alvo de mandados na operação.

Procurado, Flávio afirmou que a emenda seguiu a legislação e que a fiscalização cabe aos órgãos de controle. Em nota publicada pelo Estadão, o senador declarou:

"A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei."

Flávio não comentou os diálogos de Fafá com Peixe; a assessora e a defesa do miliciano não responderam. O Ifop negou ter qualquer relação com o miliciano ou com os irmãos Brazão e afirmou que os recursos foram aplicados em aulas de futebol para crianças. A defesa de Domingos Brazão disse que não atua no caso, e a de Chiquinho Brazão afirmou não ter conhecimento da investigação. A apuração segue em curso no STF, sem data prevista para conclusão. É a segunda investigação recente da PF em que o nome de Flávio aparece, depois do inquérito sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e o filme Dark Horse, e o caso ganhou peso político: Flávio disputa a Presidência nas eleições de outubro.

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