arrow_backVoltar
PoliticsFederal Policestfbanco-masterjustice

Relatório paralelo da PF aponta tratamento distinto de Mendonça a Lulinha e ACM Neto

bookmark_borderSalvar
HBPor Henrique Barros•4 de setembro de 2026•Fontes: Poder360, O Globo, Folha de S.Paulo

A Polícia Federal elaborou, paralelamente às apurações conduzidas pelo ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), relatórios de inteligência com 50 páginas que apontam "assimetria por espectro político" na atuação do magistrado. Segundo o Poder360, que teve acesso ao material, os agentes avaliaram que Mendonça teria adotado critério distinto nos casos do empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Lula (PT), e do candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União). O documento foi enviado ao ministro Alexandre de Moraes, que o incorporou ao inquérito das fake news e o usou na decisão de quinta-feira (3.set.2026) em que apontou "fortes indícios" de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade praticados pelo colega.

Os relatórios foram produzidos sob o comando do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e concentram a análise nas operações Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de benefícios do INSS, e Compliance Zero, que apura suspeitas ligadas ao Banco Master, ambas sob a relatoria de Mendonça. Os agentes examinaram o padrão probatório adotado pelo ministro, o tempo que ele levava para decidir sobre medidas pedidas pela corporação e sua relação com outros ministros e com atores políticos, além de levantar hipóteses sobre possíveis motivações. Para o O Globo, que citou trechos do texto, a PF avaliou que a "situação fática apurada" atribuída a Lulinha e a ACM Neto "guarda similaridade relevante", e concluiu que a percepção do relator variava "conforme o espectro político da pessoa envolvida nos fatos". A Folha de S.Paulo reportou que o documento registra uma reunião de 13 de agosto na qual Mendonça teria manifestado a percepção de que ACM Neto estaria exercendo uma atividade de representação.

Alcolumbre como "provável alvo estratégico"

O material também avalia o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Na leitura dos agentes, o parlamentar constitui um "provável alvo estratégico", em razão de sua força política, do favoritismo para permanecer na presidência da Casa e do controle da pauta, especialmente do processamento de pedidos de impeachment de ministros do Supremo. Na decisão de quinta, Moraes acusou o colega de direcionar investigações contra alvos por "motivos pessoais e políticos", escreveu que houve direcionamento contra Alcolumbre com "viés político" e afirmou ter sido ele próprio alvo do mesmo expediente. O relatório sustenta que Mendonça poderia enxergar em Antônio Rueda, presidente do União Brasil, uma rota de acesso ao senador, "com quem manteve desavença conhecida por ocasião de sua própria indicação ao Tribunal, no governo passado, quando aquele parlamentar representou grande empecilho à indicação".

De acordo com o O Globo, os agentes registraram que Mendonça teria defendido, em reunião presencial, a separação das investigações entre ACM Neto e Rueda, apesar da conexão aparente entre as condutas dos dois.

"Registre-se a assimetria de tratamento: a separação é sugerida onde a unidade identifica conexão, ao passo que, no episódio de julho de 2026, a contrariedade do relator recaiu sobre desmembramento pela unidade justamente onde a conexão inexistia."

O documento tem natureza delicada: está em papel sem timbre da PF, não é assinado e não informa a data exata do envio a Moraes. Os próprios relatórios ressaltam seus limites, como resume o Poder360: são análises de inteligência feitas em ambiente de informação incompleta, que trabalham com hipóteses e graus de confiança, e não são peças de instrução processual nem têm valor probatório. A assessoria de Mendonça foi procurada pelo Poder360 e não havia respondido até a publicação. As condutas atribuídas ao ministro ainda não foram objeto de julgamento, e não há condenação por nenhum dos crimes citados.

Como o documento chegou ao STF

A produção do material antecedeu a decisão de terça-feira (1º.set.2026) em que Mendonça retirou o sigilo de peças da investigação do Master que mostravam relação entre o fundador do banco, Daniel Vorcaro, e Moraes. Depois disso, Moraes afirmou ter tomado conhecimento da existência do relatório e determinou que a PF o enviasse ao seu gabinete, por meio do inquérito 4.781, o inquérito das fake news. Na quinta (3), o ministro usou as informações para sustentar a decisão com "fortes indícios", incluiu Mendonça no inquérito, retirou o sigilo dos documentos, determinou que a PGR fosse informada e pediu providências ao presidente do STF, Edson Fachin. Fachin abriu um novo procedimento.

O próximo passo está definido: Fachin deu cinco dias úteis para Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestarem informações. Não há data marcada para decisão final no caso.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Faça login para comentar. Entrar