O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou nesta segunda-feira (14) o fim do sigilo do processo que reúne detalhes da rede de pagamentos atribuída ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, investigado pela Polícia Federal. A decisão atendeu a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin, formulado horas antes a partir de requerimento do ministro Alexandre de Moraes e da PGR (Procuradoria-Geral da República), na véspera da sessão em que o plenário discutirá a eventual abertura de investigação contra Moraes.
O arquivo tornou público um impasse que atravessa a investigação desde março. Segundo a CNN Brasil, que teve acesso ao processo, a PF pediu ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) os relatórios de inteligência financeira dos investigados para rastrear possível movimentação de dinheiro ilícito de Vorcaro. O Coaf atendeu só a parte do pedido: ao identificar pagamentos a pessoas que teriam foro privilegiado, informou que só poderia repassar esses dados com autorização expressa do STF. A PF então pediu essa autorização a Mendonça. Segundo O Globo, o pedido aguarda resposta há seis meses, e não há registro no processo de despacho do ministro sobre o assunto. O nome da autoridade beneficiada, portanto, segue em segredo.
A CartaCapital reporta que o relatório de inteligência menciona ao menos 303 pessoas físicas e 520 pessoas jurídicas e aponta possível incidência de beneficiários com foro por prerrogativa de função no STJ e no próprio STF. A PF argumentou ao gabinete de Mendonça que a liberação completa é indispensável para evitar lacunas no rastreamento financeiro e afastar risco de nulidade processual.
O que os documentos mostram
Entre os destaques do relatório do Coaf entregue à PF está a movimentação de mais de R$ 57 milhões da Igreja Batista da Lagoinha entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025. A instituição, segundo a CNN Brasil, foi alvo de apuração na CPMI do INSS e de suspeitas de desvio de emendas parlamentares. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, atuava como pastor na igreja e transferiu R$ 19,2 milhões à instituição no período analisado. A CartaCapital acrescenta que outros repasses suspeitos somaram R$ 28 milhões direto à conta da igreja, cujo faturamento anual presumido era de R$ 950 mil. A reportagem procurou a Lagoinha e não obteve retorno até a publicação.
Como o caso chegou até aqui
O caso Master levou a PF a apreender o celular de Vorcaro, um iPhone 17 Pro, e um relatório da corporação apontou mensagens trocadas entre o ex-banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes. A divulgação deflagrou uma disputa interna na Corte pelo acesso integral aos dados. Os principais passos:
- Março de 2026: a PF pede a Mendonça autorização para o Coaf repassar pagamentos feitos a autoridade com foro privilegiado, segundo O Globo e o site Cláudio Dantas; o pedido segue sem despacho.
- Domingo (13): Moraes pede o fim do sigilo de todas as petições do caso Master e a liberação dos autos a todos os ministros antes da sessão de terça.
- Segunda (14): Fachin atende Moraes e a PGR e pede a Mendonça o levantamento do sigilo; a PF entrega cópias dos dados do celular de Vorcaro aos gabinetes de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes; Mendonça derruba o sigilo dos pagamentos.
- Terça (15): o plenário do STF analisa o relatório da PF sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes e decide se abre investigação contra o ministro.
Na disputa pelo acesso, Moraes afirmou que o processo contém "elementos essenciais" para a sessão e declarou que "não cabe ao ministro relator escolher quais os documentos acessíveis ao Colegiado para realizar seu julgamento". Gilmar Mendes sustentou que a retenção dos dados compromete o equilíbrio interno e a paridade da Corte. Mendonça, por sua vez, já afirmou ter levantado o sigilo de todas as informações e explicou que guarda uma cópia de segurança criptografada e lacrada, como contraprova, sem ter manuseado a mídia.
A PGR, que defendeu a divulgação, informou que sequer tinha conhecimento da existência desses arquivos no sistema da Corte, segundo a CartaCapital. Vorcaro segue na condição de investigado no caso Master.
O próximo passo é a sessão do plenário de terça-feira (15). O pedido da PF de março, sobre o repasse integral dos dados do Coaf, segue sem data para decisão.