A Polícia Federal aponta que dois servidores que ocupavam postos de comando na supervisão bancária do Banco Central receberam propina de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para atuar como consultores informais do banqueiro junto à instituição que tinham o dever de fiscalizar. Segundo a corporação, Paulo Sérgio Neves de Souza, então chefe adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e Belline Santana, chefe do departamento, preparavam Vorcaro para reuniões com diretores e com o então presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, e revisavam documentos de fiscalização. As alegações constam de uma representação enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 27 de fevereiro de 2026, tornado pública na quinta-feira (10) depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo de procedimentos ligados ao Master, conforme noticiou a BBC News Brasil. As conclusões estão em fase de investigação e não há condenação de nenhum dos citados.
Na leitura dos investigadores, a dupla defendia os interesses do Master dentro do Banco Central e se comportava, em diversas ocasiões, como "empregados" do banqueiro. A consultoria teria começado em outubro de 2023, quando Paulo Sérgio assumiu o cargo: ele sugeriu estratégias, antecipou posicionamentos internos e orientou Vorcaro sobre o que dizer em encontros com a cúpula da instituição, sustenta a PF. A corporação diz ter encontrado indícios de que Belline também atuou de forma consistente e recorrente como consultor informal, com reuniões privadas e interlocução direta com Vorcaro. Em dezembro de 2023, segundo o G1, Paulo Sérgio sugeriu pontos a serem abordados em reuniões do banqueiro com o "Presi"; em depoimento, confirmou que "Presi" era Roberto Campos Neto. Os principais marcos do caso, segundo os documentos agora públicos, são:
- Outubro de 2023: Paulo Sérgio assume a chefia adjunta do Desup e, segundo a PF, começa a assessorar Vorcaro; Fabiano Zettel registra o primeiro pagamento a Belline.
- Fevereiro de 2024: antes de encontro de Vorcaro com o diretor de fiscalização, Ailton Aquino, Paulo Sérgio alerta o banqueiro sobre possíveis perguntas envolvendo a gestora Reag, segundo a BBC News Brasil.
- Janeiro de 2025: lista de pagamentos pendentes do mês reserva R$ 750 mil só para Belline.
- 28 de março de 2025: o BRB, controlado pelo governo do Distrito Federal, anuncia acordo para comprar 58% do capital total do Master; a Operação Compliance Zero aponta aportes de cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de consignados de origem "altamente duvidosa".
- 2 de outubro de 2025: Belline cria o grupo de WhatsApp "Master", com Vorcaro e Paulo Sérgio.
- 27 de fevereiro de 2026: a PF assina a representação ao STF.
- 10 de setembro de 2026: Mendonça retira o sigilo e o material se torna público.
Viagem à Disney e pagamentos mensais
Para a PF, as mensagens mostram que o serviço em favor do banqueiro tinha um preço. Os dois servidores teriam recebido vantagens materiais custeadas por Vorcaro: uma viagem de luxo à Disney para Paulo Sérgio e a família e pagamentos mensais e reiterados a Belline. Os repasses a Belline eram tratados por Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. Em outubro de 2023, Zettel escreveu: "Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?". Vorcaro respondeu: "Ok". Em janeiro de 2025, Zettel enviou a Vorcaro a lista de pagamentos pendentes do mês: só para Belline, R$ 750 mil.
A peça também reproduz o trabalho de revisão de documentos. Em 25 de abril de 2025, Vorcaro pediu que Paulo Sérgio analisasse uma minuta de resposta a um termo de comparecimento; o servidor propôs trocar "captação de receitas" por "captação de recursos", corrigiu uma data e encerrou: "Importante protocolar rapidamente". Em 27 de outubro de 2025, o banqueiro compartilhou no grupo "Master", aberto por Belline com a mensagem "Criei esse grupo, no intuito de facilitar nossa interlocução", a minuta de um ofício de atualização de ações dirigido ao próprio Desup: "Segue minuta para avaliação". Paulo Sérgio ainda recomendou cautela em relação ao BRB: "entendo imprudente citar problema no canal BRB".
Depoimento e defesas
Ao depor, Paulo Sérgio disse que a orientação se deu em um contexto específico, de Vorcaro reclamando de perseguição dentro do sistema financeiro: "Se o S1 está te perseguindo, quem pode fazer alguma coisa é a diretoria. Então, aproveite para falar com o Roberto". Questionado pelo delegado, classificou a situação como "muito específica". O delegado respondeu:
Pelo menos para quem não está habituado ao trabalho dos senhores, fica parecendo muito mais um trabalho quase de consultor do banco do que consultor do Banco Central. O senhor está trabalhando quase como um gestor estrategista do Banco Master.
As defesas de Paulo Sérgio de Souza e de Belline Santana afirmaram que os dois sempre atuaram dentro de suas atribuições no Banco Central e que os contatos com o Banco Master foram estritamente institucionais, sem qualquer interferência nas atividades de fiscalização. As defesas de Daniel Vorcaro e de Fabiano Zettel não quiseram se manifestar.
As mensagens integram os procedimentos sobre o Banco Master que correm no STF sob responsabilidade do ministro André Mendonça. Aos investigados cabe a presunção de inocência até decisão final. Os próximos passos dependem da formalização de eventuais acusações pela PF e pela Procuradoria-Geral da República e das decisões do ministro sobre o andamento da apuração. Não há data marcada.