Um grupo ligado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master em liquidação, obteve informações de processos sigilosos do MPF (Ministério Público Federal) por meio de consultas registradas nos logins funcionais de servidores do próprio órgão, aponta a Polícia Federal. A conclusão está em relatório enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal) e divulgado na noite de quinta-feira (10), depois que o ministro André Mendonça, que responde pelo caso na Corte, retirou o sigilo de parte das investigações a pedido do presidente do tribunal, Edson Fachin.
Segundo a CNN Brasil, a análise do conteúdo extraído do celular de Vorcaro revelou acessos recorrentes e irregulares a procedimentos sob sigilo não apenas no MPF, mas também na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central. "As mensagens evidenciam que havia acesso recorrente e irregular a procedimentos sigilosos em andamento no MPF, na Polícia Federal, na Polícia Civil e no Banco Central", afirma o relatório. Para a PF, os acessos ocorriam com uso de logins funcionais de terceiros, extração indevida de documentos e consultas não autorizadas em sistemas internos, e as informações protegidas eram usadas para "finalidades alheias ao interesse público". No quadro de pessoas citadas na investigação, a corporação registra que o login de dois servidores do MPF foi utilizado repetidamente para acessar processos sigilosos do órgão, e fala em "possível uso indevido, com ou sem participação consciente", deixando em aberto se os funcionários sabiam que suas credenciais serviam de porta de entrada.
As mensagens e o "executor operacional"
As mensagens reproduzidas no documento mostram Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apontado pela PF como "executor operacional" de Vorcaro e identificado como "Felipe Mourão" nas conversas, encaminhando ao então banqueiro resultados de consultas a sistemas internos. A Folha de S.Paulo relata que as consultas alcançaram apurações sobre o próprio Master e sobre o BRB (Banco de Brasília) e que, entre as mensagens obtidas, figura um "quero tudo" atribuído ao grupo. Em junho de 2024, segundo o relatório, Mourão enviou uma lista com nomes de pessoas e empresas e disse que Vorcaro poderia acrescentar outros "pra puxar os sigilosos". Perguntado sobre quais documentos desejava receber, Vorcaro respondeu: "Todos, obviamente".
Em um dos episódios descritos pelos investigadores, um documento atribuído ao MPF foi usado para obter informações sobre quem havia contratado um helicóptero que teria sobrevoado a casa do ex-banqueiro na Bahia. A PF diz que Mourão recebia R$ 1 milhão por mês por um trabalho que incluía acesso a informações sigilosas, coação e fabricação de dossiês, e o situa no núcleo chamado "A Turma", descrito no relatório como suposta milícia formada para monitorar e intimidar pessoas consideradas adversárias ou ligadas às apurações sobre o banco. Para a corporação, Vorcaro montou uma "estrutura organizada, com divisão funcional de tarefas" voltada à "prática reiterada de condutas ilícitas em diversas frentes de atuação".
Linha do tempo
O Master, hoje em liquidação, é alvo da Operação Compliance Zero, da PF, que apura suspeitas de fraude envolvendo o banco. Mourão foi preso nessa operação em 4 de março, se enforcou na cela da Superintendência da PF em Minas Gerais no mesmo dia e teve a morte confirmada dois dias depois, segundo a Folha. As investigações sobre o caso também correm no STF, onde Mendonça determinou na quinta a liberação de parte dos autos.
Vorcaro é investigado e não há condenação contra ele. Em depoimento à PF, ele negou ter obtido informações privilegiadas do Banco Central, segundo a CNN Brasil. O sigilo do inquérito foi retirado apenas parcialmente, e a abertura de novos trechos depende de decisão do relator.