O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), encaminhou na segunda-feira (14) ao presidente da Corte, Edson Fachin, uma explicação sobre a decisão de 24 de agosto em que intimou pessoalmente delegados da Polícia Federal para identificar os destinatários de mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O relatório produzido a partir do pedido apontou o ministro Alexandre de Moraes como um dos interlocutores de Vorcaro. O documento chegou horas antes da sessão desta terça-feira (15), a primeira na história do tribunal em que os ministros se reúnem para decidir se abrem investigação contra um colega. A explicação atende a prazo fixado por Fachin para que Mendonça, Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestassem informações antes do julgamento.
Na manifestação, Mendonça afirma que agiu "por cautela", "buscando preservar a higidez dos autos e a eficiência das investigações", "sem imputar qualquer suspeita a quem quer que seja". Segundo ele, as conversas mencionavam Gonet e Andrei Rodrigues, o que, em sua leitura, exigia ainda mais cuidado com o sigilo. O ministro também sustenta que pediu a identificação para esclarecer uma "verdadeira rede de monitoramento e influência coordenada pelo investigado, com potencial infiltração nas mais elevadas instâncias de diversas instituições da República". Segundo a Folha de S.Paulo, ele negou a Fachin ter cometido irregularidades e afirmou que a PF lhe entregou o material presencialmente em agosto.
Gonet havia pedido, em 1º de setembro, que Mendonça declarasse nula a decisão que levou a PF a produzir o relatório. Para a Procuradoria-Geral da República, a apuração "excedeu os limites da competência do juiz" na fase pré-processual, e caberia ao próprio plenário do STF decidir sobre a investigação de um de seus integrantes. Moraes respondeu na segunda, em ofício de 44 páginas separado em 121 pontos. Segundo a BBC News Brasil, ele chama o caso de "farsa" e fala em "vingança" com motivação político-eleitoral. Ele ainda escreve que a tentativa de golpe "não se encerrou em 8 de janeiro de 2023" e que o Supremo "saberá resistir".
"Apesar da farsa montada e divulgada, não existe absolutamente nada e todos sabem a motivação político-eleitoral dessas criminosas mentiras. VINGANÇA", escreveu Moraes, que nega qualquer irregularidade e diz que nunca favoreceu Vorcaro.
Como o caso chegou até aqui
Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, foi preso em novembro de 2025, na operação Compliance Zero, e é investigado por suspeita de fraudes financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões. Chegou a ser solto e foi detido novamente em março deste ano. Mendonça relatava no tribunal o inquérito das fraudes quando, em 1º de setembro, retirou o sigilo de documentos e tornou públicas mensagens que associam Moraes a Vorcaro, abrindo caminho para a petição 16.662, agora sob análise dos ministros. Segundo o G1, o relatório da PF aponta 52 mensagens trocadas entre Moraes e o ex-banqueiro. Os diálogos mostram Vorcaro cobrando atenção especial aos pagamentos de um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o banco e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, com uma transferência de R$ 3,42 milhões documentada em fevereiro de 2024. Nenhuma investigação foi aberta contra Moraes até agora, e a sessão desta terça decide justamente se ela será autorizada.
A sessão inédita desta terça
Ao abrir os trabalhos, Fachin fez um apelo institucional. "Esta instituição não nos pertence. Temos o dever de preservá-la no presente", afirmou, antes de ler a manifestação da PGR e sustentar que "compete ao plenário do Supremo Tribunal Federal investigar seus integrantes". Dois ministros saíram do colegiado de julgamento: Kassio Nunes Marques declarou-se impedido por presidir o Tribunal Superior Eleitoral a semanas das eleições e afirmou nunca ter trocado mensagens com Vorcaro, além de negar que seu filho tenha prestado serviços ao banco; Dias Toffoli declarou-se suspeito, por "foro íntimo", e disse que seguirá na sessão e poderá usar da palavra. Gilmar Mendes apresentou questão de ordem para debater, antes da votação, documento em que o ministro Flávio Dino pede a Fachin apuração de elo entre o Banco Master e um instituto ligado a Mendonça.
A partir da leitura do relatório de Fachin, os ministros devem votar se autorizam a abertura de investigação contra Moraes. Fachin sinalizou a colegas disposição de concluir o julgamento nesta própria terça, mas a ala próxima do ministro não descarta pedir vista, ou seja, mais tempo para análise, segundo a coluna de Valdo Cruz no G1. A sessão ocorre a 19 dias do primeiro turno das eleições gerais, e o caso já entrou na campanha presidencial: Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema comentaram o julgamento ao longo da manhã, segundo o G1.