Uma operação do Ministério Público de São Paulo e das polícias Civil e Militar prendeu 15 pessoas apontadas como integrantes da "máfia dos celulares", rede suspeita de furto, roubo, receptação e revenda de aparelhos no estado. Segundo as investigações, o grupo movimentou cerca de R$ 460 milhões ao longo de cinco anos. A ação, batizada de Operação Frankmobile, foi executada no dia 10 de setembro em São Paulo e Goiás, e seus resultados foram detalhados no domingo (13) pelo programa Fantástico, da TV Globo.
Os números do mercado ilegal são grandes. O MP estima que mais de 830 mil celulares tenham sido roubados ou furtados no Brasil em um ano, o equivalente a um aparelho a cada 38 segundos, e que na cidade de São Paulo, a maior do país, apenas 6% dos dispositivos são recuperados. A investigação durou cerca de dois anos e mapeou uma cadeia dividida em ao menos quatro núcleos: roubo e furto (incluindo quebra de vidros de carros em congestionamentos, latrocínios e furtos em grandes eventos), desbloqueio e acesso a dados das vítimas, revenda e desmonte para venda de peças.
Da Rua Guaianases à adulteração do IMEI
Segundo os investigadores, o aparelho retirado da vítima seguia rapidamente para pontos de receptação, onde começavam as tentativas de acesso a contas bancárias e aplicativos. Uma testemunha protegida, que participou dos crimes e colaborou com as apurações, afirmou que os celulares já tinham destino definido logo após o furto: a Rua Guaianases, no centro da capital paulista.
"A gente provou que, de fato, a rua Guaianases sempre foi esse entreposto fundamental para a primeira receptação desses aparelhos celulares. É onde eles já começam a fazer tentativas de transferências bancárias. E outros acessos a aplicativos e conteúdos que a vítima tem no aparelho celular", disse o promotor Luiz Fernando Bugiga.
Depois da receptação, os aparelhos iam para núcleos especializados em adulterar o IMEI, o número de identificação único de cada celular. Segundo o Ministério Público, o esquema substituía o IMEI de aparelhos roubados por números de celulares inativos e se valia de falhas na integração de informações entre fabricantes, operadoras, lojas e órgãos públicos. Sites hospedados no exterior apoiavam o processo, notas fiscais fraudulentas davam aparência legal à revenda e um quarto núcleo desmontava os aparelhos para vender as peças separadamente.
Prisões, cães farejadores e 60 toneladas de material
A megaoperação mobilizou 1.700 agentes e cumpriu 84 mandados de busca e apreensão e sete de prisão temporária, todos cumpridos segundo a Polícia Civil. Flagrantes e prisões de procurados elevaram o total para 15 pessoas presas. A Justiça autorizou o sequestro e o bloqueio de bens e valores acima de R$ 5 milhões, e a Secretaria da Fazenda suspendeu as inscrições estaduais das 18 empresas alvo da ação. Para localizar aparelhos escondidos, a Polícia Penal usou cães farejadores treinados para detectar componentes químicos presentes nos celulares. Cerca de 10 mil itens, entre aparelhos, peças e acessórios, foram apreendidos; como eram muitos para contar um a um, os peritos estimaram o peso: cerca de 60 toneladas.
Todos os presos são investigados, e nenhum foi condenado. As reportagens do Fantástico e de O Globo não registram manifestação das defesas. Os próximos passos citados pelas autoridades são a análise do material apreendido, para identificar vítimas e responsabilizar envolvidos, e o início dos procedimentos para cassar os registros das 18 empresas; nenhum prazo foi divulgado. Para dificultar novas fraudes, o governo paulista passou a exigir o IMEI na emissão de notas fiscais eletrônicas de celulares.