arrow_backVoltar
ElectionsINSSpoliceFlavio Bolsonarojustice

PF mapeia cinco viagens de Flávio Bolsonaro com advogado investigado no caso do INSS

bookmark_borderSalvar

A Polícia Federal identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas em conjunto pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e pelo advogado Willer Tomaz, investigado sob suspeita de envolvimento no esquema de fraude do INSS, no primeiro semestre de 2025. Os registros estão em fotos, reservas e e-mails apreendidos em agosto, durante buscas no escritório do advogado em Brasília, segundo reportagem do jornal O Globo publicada nesta sexta-feira (18). Além das viagens, a amizade incluiu o uso, durante a campanha eleitoral, de um apartamento em São Paulo ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro, e virou fonte de desgaste para o presidenciável a menos de três semanas do primeiro turno.

A viagem mais emblemática ocorreu em março de 2025, nove meses antes de Flávio lançar a candidatura. Em um roteiro de uma semana pela África do Sul, que incluiu um safári, o senador foi acompanhado de familiares, de Willer e do senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado no caso do INSS. Em uma foto localizada pela PF, Flávio, Weverton e Willer aparecem com crianças em área de savana, todos com camisetas iguais estampadas com animais africanos e a inscrição "Big Five", termo do turismo de safári para elefante, leão, leopardo, rinoceronte e búfalo. Segundo O Globo, houve ainda viagens a Portugal, à França e aos Estados Unidos, e, em janeiro de 2025, os dois embarcaram em um jatinho da Prime You, empresa que teve Vorcaro entre os sócios, dos Estados Unidos para Brasília.

O apartamento na Vila Nova Conceição

No início de agosto, Flávio se instalou em um apartamento de 158,87 m² no edifício l'Adresse, na Vila Nova Conceição, um dos bairros mais caros de São Paulo. No imóvel, cedido por Willer, o candidato gravou vídeos para o horário eleitoral e reuniu a equipe que definiu as últimas estratégias da campanha. Até fevereiro, o apartamento pertencia a Fabiano Zettel, cunhado e apontado pela PF como principal operador de Vorcaro, ex-controlador do Banco Master preso sob suspeita de comandar a maior fraude contra o sistema financeiro do país. A revelação do uso do imóvel é da revista piauí, de 16 de setembro, e foi confirmada por O Globo. Segundo a piauí, que atribui a revelação do negócio à Folha de S.Paulo, Zettel comprou o apartamento por R$ 5,5 milhões em abril de 2025 e o vendeu por R$ 3,5 milhões em fevereiro deste ano à empresa do advogado, uma perda nominal de R$ 2 milhões.

A transferência foi registrada em cartório em 4 de março, dois meses depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) determinar o bloqueio dos bens de Zettel e no mesmo dia em que ele foi preso na terceira fase da Operação Compliance Zero, que apura crimes envolvendo o Banco Master. O uso do imóvel por Flávio virou alvo de questionamento de adversários no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com o argumento de que a cessão deveria ter sido declarada como doação de campanha, segundo O Globo. A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) a investigação do caso, segundo o site PSOL 50. A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) recorreu ao TSE para pedir a apuração de possível abuso de poder econômico na campanha, informou o Sul 21.

O inquérito do INSS e as respostas

Willer foi alvo de operação da PF em agosto, sob suspeita de manter uma estrutura de empresas e operadores financeiros para lavar ou ocultar recursos obtidos com desvios ilegais de aposentadorias. Em relatório que embasou as buscas, a corporação afirma que o advogado atuava como "hub financeiro, patrimonial e logístico" do grupo investigado, sustentado por "empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários, operadores financeiros e interlocutores políticos". O documento cita o repasse de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Willer para a mulher de Weverton. O senador do Maranhão, alvo de operação em dezembro, é descrito pela PF como "liderança e sustentáculo das atividades empresariais e financeiras" do grupo que fraudou o INSS. Willer nega ser investigado por fraude contra o sistema previdenciário; Weverton nega irregularidades. A conexão entre Flávio e o advogado entrou na mira da PF dentro desse inquérito.

Procurado, Flávio disse manter com Willer uma "relação de amizade" "legítima" e afirmou que "qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos". Ele não informou se teve despesas pagas pelo advogado. Willer afirmou, em nota, que as viagens "são de caráter estritamente privado", foram "custeadas com recursos próprios" e "nada têm a ver com função pública, com contratos ou com qualquer interesse de terceiros", e que "jamais manteve" relação pessoal, comercial ou societária com Zettel ou Vorcaro. Segundo a piauí, em um primeiro contato por telefone o advogado negou que Flávio tivesse usado o apartamento. Weverton disse que Willer é seu "compadre e amigo há muitos anos" e que as viagens em família são "relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos". O Globo ainda relata que Willer emprestou uma casa em Angra dos Reis para a festa de aniversário de uma filha do senador em fevereiro e que os dois atuam juntos, como advogados, em um processo no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Os próximos passos estão com a Justiça. O TSE ainda não decidiu se abre investigação sobre o uso do imóvel, e a PGR não se manifestou sobre o pedido de Erika Hilton. Na PF, investigadores seguem analisando o material apreendido de Willer dentro do inquérito da fraude do INSS. O primeiro turno da eleição presidencial está marcado para 4 de outubro, a 16 dias.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Faça login para comentar. Entrar