Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro pela Polícia Federal mostram que o dono do Banco Master tratava o senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, como "conselheiro" e "comandante". Segundo reportagem do jornal O Globo publicada nesta sexta-feira (19), um relatório da PF aponta que o advogado Ciro Soares atuava como intermediário entre os dois: avisava Vorcaro quando estava com o parlamentar, enviava fotos ao lado dele e telefonava para repassar recados atribuídos ao senador. Otto Alencar nega proximidade com o banqueiro e, de acordo com o jornal, não é investigado no caso.
O caso, em resumo
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 no aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta, na Operação Compliance Zero, que apura a emissão de títulos de crédito falsos. Em seguida, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. Em depoimento à CPI do Crime Organizado, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que as fraudes investigadas podem ter movimentado cerca de R$ 12 bilhões. O conteúdo do celular do banqueiro, estimado em 500 gigabytes, foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF) com acesso restrito, e trechos dele alimentam relatórios da polícia, como o que menciona Otto Alencar.
As mensagens
O primeiro diálogo citado nos autos é de 30 de maio de 2024, quando Otto integrava a CCJ e a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), que analisa projetos de interesse do setor financeiro. "Otto queria falar com vc", escreveu Soares. Depois de uma ligação, Vorcaro respondeu: "Mande abraço pro nosso comandante aí. Esse aí é conselheiro e comandante nosso". Em 5 de dezembro daquele ano, o advogado voltou ao assunto: "Dani, muito importante falarmos. Otto fez um movimento grande pra vc. Ficou lhe aguardando ontem e hj". O banqueiro respondeu que estava "num momento muito complicado".
Os registros continuam ao longo de 2025, ano em que Otto assumiu a presidência da CCJ. Em 12 de novembro, dias antes da prisão de Vorcaro, Soares escreveu: "Tô aqui com Otto agora. Perguntando de vc". O banqueiro respondeu: "Manda abraço pra ele. Estamos construindo virada de mesa. Mas precisarei de vocês". Na mesma conversa, em termos chulos, o advogado disse que o senador havia sido duro naquele dia na sabatina de recondução do procurador-geral da República, Paulo Gonet, aprovada no mesmo dia. Em 19 de junho, após uma ligação não atendida, Soares mandou mensagem: "Ottão está dizendo que está com saudades de vc". "E eu tô dele", respondeu Vorcaro, que em seguida incentivou a ida do senador a um evento em Londres patrocinado pelo Master: "Tem que ir. Vamos tomar os top Macallan", em referência ao uísque. Os relatórios apontam ainda tentativas de organizar encontros presenciais entre os dois em Salvador e Brasília.
As versões
Procurado, Otto Alencar afirmou inicialmente que é amigo de Soares, advogado do PSD na Bahia, e negou qualquer contato com Vorcaro. "Nunca o vi ou troquei mensagem. Nunca fui em festa, Londres ou intermediei conversa com Vorcaro nem absolutamente ninguém", disse o senador, que também negou ligações ou outros contatos. Depois da publicação da reportagem, Otto reconheceu ter conversado com o banqueiro "duas ou três vezes por telefone", pelo aparelho do advogado, e afirmou que Vorcaro pediu apoio à chamada emenda Master, que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Segundo as investigações, a proposta foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) em acordo com o banco, mas rejeitada pelo relator da PEC da Autonomia do Banco Central, Plínio Valério (PSDB-AM). Otto disse que discordava da iniciativa e que já havia sido alertado dos riscos pelo então ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
Soares, que segundo O Globo também não é alvo de inquéritos ligados ao caso, afirmou que seria "natural uma reunião entre líder político e líder empresarial", mas negou ter organizado almoços ou encontros entre os dois. A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre as mensagens e reitera, segundo o jornal, que o banqueiro está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos. Nesta sexta (19), os ministros do STF André Mendonça e Luiz Fux informaram à PF que não conseguiram acessar as cópias do celular que receberam e pediram auxílio técnico, segundo o G1. Não há, até aqui, investigação em curso contra Otto Alencar nem contra Soares no caso Master.