Glaidson Acácio dos Santos, o "Faraó dos Bitcoins", afirmou à Justiça Federal que só ele conhece a senha do dispositivo que guarda as chaves digitais de uma fortuna em criptomoedas trancada em um cofre da Polícia Federal. A declaração aparece nos depoimentos dele e da mulher e sócia, a venezuelana Mirelis Diaz Zerpa, a que o programa Fantástico, da TV Globo, teve acesso com exclusividade e exibiu no domingo (6). Os dois respondem, sem condenação até agora, por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro, entre eles oferta irregular de investimentos, operação de instituição financeira sem autorização e gestão fraudulenta. Perguntado pela juíza quanto havia na carteira digital, Glaidson recorreu ao direito ao silêncio.
"Poderia declarar o montante?", perguntou a magistrada. "Não, Vossa Excelência, por... Minha integridade... minha integridade física."
Segundo a reportagem, o aparelho tem o tamanho de um pen drive e concentra as chaves de acesso a uma parte desconhecida da fortuna. Glaidson sustentou que esse dinheiro, se liberado, pode pagar credores do esquema, e o destino dos criptoativos segue como a pergunta central da investigação, cinco anos após a prisão.
Como o esquema funcionava, na versão do réu
Em depoimento, Glaidson narrou como a G.A.S. Consultoria e Tecnologia, fundada por ele em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, prometia 10% de rendimento ao mês a milhares de investidores. Segundo ele, o volume captado o transformava em uma "baleia", termo do mercado cripto para quem detém quantidade suficiente de moedas para influenciar preços. "Como 'baleia', eu consigo manipular outras criptomoedas", afirmou, ao descrever acordos com outros grandes detentores para derrubar cotações. Em certo momento, disse: "Não são 10 milhões, nem 50 milhões. São 200, 300 milhões de dólar numa...". Ao Ministério Público Federal, que perguntou se havia ilegalidade na prática, respondeu: "Não, não é ilegalidade, né? É falta de ética."
Para a Polícia Federal, a rede informal de investimentos movimentou R$ 38,2 bilhões. Glaidson relatou que funcionários viajavam de helicóptero até São Paulo carregando espécie dos clientes, depois convertida na carteira digital da empresa, e confirmou seu papel de comando: "Idealizador da empresa, fundador da empresa, presidente da empresa, gestor da empresa, responsável da empresa".
Da prisão em 2021 aos depoimentos
Glaidson foi preso na Operação Kryptos, da Polícia Federal, em 2021, e teve as contas bancárias bloqueadas. Ainda assim, segundo o MPF, os negócios da G.A.S. não pararam: em agosto daquele ano, um computador foi acessado em Kissimmee, na Flórida, cidade onde estava Mirelis, e 4,5 mil bitcoins, então avaliados em mais de R$ 1,06 bilhão, deixaram a conta. Considerada foragida pela Justiça brasileira, ela foi presa em Chicago em 2024 e deportada ao Brasil um ano depois. Para o MPF, ela integrava o comando do esquema junto com o marido; ela também responde por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro.
Ao depor, a venezuelana negou as acusações e disse que atuava como se fosse empregada de Glaidson: "Exatamente". Sobre o controle das entradas de clientes, afirmou: "Nunca cuidei da administração disso". Questionada sobre resgates após a operação policial, respondeu: "Com meu dinheiro, sim. Não, da empresa não. Eu nunca retirei dinheiro da empresa." Sobre o processo, declarou: "Com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica." O processo criminal segue em curso na Justiça Federal, nenhum dos dois réus foi condenado e a reportagem não divulgou data para o próximo ato processual.