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Banco de Edir Macedo aplicou R$ 271 mi em papéis podres iguais aos do caso Master

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O banco Digimais, controlado pelo grupo Record do bispo Edir Macedo, comprou R$ 271,4 milhões em cártulas do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina) por meio do fundo de investimentos Betel, revelou a Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (18). São papéis que valem praticamente nada no mercado, do mesmo tipo que o Banco Master usou no esquema de inflar balanços apurado no caso Master. Os dados vêm da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e foram enviados à CPI do Crime Organizado do Senado.

Até janeiro deste ano, o Digimais era o único cotista do Betel, e todo o patrimônio do fundo, de R$ 271,4 milhões, estava aplicado nos papéis do Besc, segundo dados da CVM obtidos pela Folha. O valor equivale a 82% do patrimônio líquido do banco, de R$ 331 milhões no último balanço. O fundo foi criado em 24 de abril de 2025 com o nome PNG International Bank e virou Betel em 26 de junho daquele ano, quando o Digimais comprou toda a emissão de cotas. A aplicação nos papéis do Besc aparece nas informações do fundo desde julho de 2025 e segue até o dado mais recente, de agosto deste ano.

O caminho dos papéis

As cártulas foram compradas de dois outros fundos, o SDG II e o BB Claim, aponta a reportagem. Os dois integram uma cadeia cujos donos finais são filhos de João Carlos Mansur, controlador da gestora Reag, que administrava tanto os fundos do Master quanto os do Digimais e foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano, sob acusação de violar normas do sistema financeiro. No caso Master, o SDG II serviu para esconder R$ 5,4 bilhões em empréstimos do banco de Daniel Vorcaro, e fundos ligados à instituição compravam títulos do Besc como se valessem milhões, para inflar ativos, dar garantia a retiradas vultosas e sustentar a captação via CDBs. A CVM investiga operações da Reag com papéis do Besc desde 2022. A Reag não respondeu ao pedido de comentário. Mansur apresentou proposta de delação premiada à Procuradoria-Geral da República e aguardava aval do ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal), até a crise na corte paralisar as investigações.

Procurado, o Digimais afirmou que o Betel não integra mais seu portfólio desde outubro de 2025. A Folha aponta contradição entre a resposta e os dados da CVM encaminhados à CPI. O fundo não é citado no balanço do banco nem consta do conglomerado prudencial da instituição no Banco Central, e o banco não informou quanto teria recebido pelas cotas, caso tenham sido vendidas. Betel significa "casa de Deus" em hebraico e é o nome de uma cidade da Bíblia que, segundo o relato, Jacó teria fundado após um sonho profético.

Investigação e balanço

A Polícia Federal investiga o Digimais por suposta manipulação de relatórios financeiros para esconder a situação real do banco e aparentar solidez diante dos órgãos de controle. Os crimes sob apuração incluem gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e empréstimos que a lei proíbe a bancos, com foco também na compra de precatórios. Segundo a Folha, os investigadores já tinham identificado métodos semelhantes aos do Master para inflar o patrimônio do banco, mas o uso de cártulas do Besc ainda não tinha aparecido. Na quinta-feira (17), o banco divulgou balanço com prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre deste ano, valor também reportado pelo Valor Econômico e superior ao patrimônio líquido de R$ 331 milhões do último balanço.

O Estadão já havia mostrado, em maio, que o banco usava fundos dos quais era o próprio cotista para tirar do balanço carteiras em atraso. Com isso, declarou lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025 e deixou de lançar pelo menos R$ 480 milhões em créditos vencidos, além de ter vendido precatórios à holding de Macedo, segundo o jornal, segundo o qual cerca de R$ 3 bilhões estavam em fundos que os auditores não conseguiram examinar. Para quem aplica em CDBs de bancos médios, o caso mostra que fundos fora do balanço podem carregar papéis sem valor de mercado, e que é o tamanho do balanço que define quanto a instituição pode captar. Para os clientes do financiamento de veículos, maior carteira do banco, e do crédito consignado, o Digimais segue à venda há mais de um ano, investigado pela PF e com prejuízo semestral acima do próprio patrimônio líquido.

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