A delegação do Brasil deixou o plenário da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, na tarde desta quinta-feira (24), durante o discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Segundo a Folha de S.Paulo, a saída foi coletiva: diversas outras delegações também abandonaram o salão, repetindo o protesto feito na sessão do ano passado. O premiê foi vaiado por parte dos presentes e rebateu os que saíram chamando-os de "covardes morais".
A cena ocorreu na 81ª Assembleia Geral, aberta sob o reconhecimento do secretário-geral António Guterres de que a organização atravessa uma crise. Ao entrar no plenário, Netanyahu foi recebido com vaias e com aplausos de convidados e aliados nas tribunas superiores, a ponto de o presidente da sessão, Khalilur Rahman, pedir ordem mais de uma vez, relata a Folha. Logo no início da fala, o premiê desafiou quem pretendia sair. "Se mais algum covarde moralmente quiser sair, que saia agora", disse, na transcrição do g1. Em seguida, afirmou que "Israel, ao se defender, também está defendendo muitos dos países cujos delegados acabaram de deixar este plenário".
A posição brasileira
O gesto brasileiro segue a linha que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sustenta desde o início da guerra em Gaza. Ao abrir o debate geral na terça-feira (22), Lula citou nominalmente Netanyahu e o acusou de genocídio. No mesmo discurso, em indireta aos Estados Unidos, afirmou que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém", segundo o g1.
"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza", disse o presidente, que voltou ao Brasil no mesmo dia.
No momento da fala de Netanyahu, a cadeira do Brasil era ocupada por funcionários da missão diplomática junto à ONU. O chanceler Mauro Vieira participava de um evento em apoio à agência da ONU para refugiados palestinos, a UNRWA, organizado por Brasil, Jordânia e Espanha. O secretário-geral Guterres, prestes a deixar o cargo, compareceu ao mesmo encontro e por isso não estava no plenário. Israel já declarou persona non grata tanto Guterres, por suas críticas à guerra, quanto o próprio Lula.
Os interesses em disputa no plenário
O discurso ocorre em meio ao isolamento diplomático crescente do premiê, anota o g1. Reino Unido e França adotaram medidas contra produtos provenientes de assentamentos israelenses na Cisjordânia, e o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu em seu discurso na ONU o reconhecimento do Estado palestino. Em Nova York, Netanyahu é alvo do prefeito Zohran Mamdani, que defende o cumprimento do mandado de prisão expedido em 2024 pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), no âmbito da investigação sobre possíveis crimes de guerra na ofensiva em Gaza.
Na tribuna, Netanyahu atacou Mamdani, a quem chamou de antissemita e de tentar impedi-lo de discursar, e negou as acusações: "Israel não cometeu genocídio. Israel impediu um genocídio". Horas antes, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, discursara por vídeo, pois os Estados Unidos negaram vistos à delegação palestina pelo segundo ano consecutivo; ele denunciou um "esquema colonialista" e pediu que a comunidade internacional não permita novos massacres. Como nos dois últimos anos, Netanyahu também usou objetos como apoio visual: mostrou um pager, alusão à operação que fez explodir aparelhos do Hezbollah, e um equipamento Starlink para acusar o Irã de isolar seus cidadãos. Ao líder sírio Ahmed al-Sharaa, que afirma que as Colinas de Golã, ocupadas por Israel desde 1967, são território sírio, respondeu que os judeus estiveram lá "desde o tempo de Moisés".