Bill Gates diz que IA pode desencadear eventos com 'um bilhão de mortes' e cobra regras
O bilionário Bill Gates, fundador da Microsoft, disse que a inteligência artificial é "certamente poderosa o suficiente para desencadear eventos que causem um bilhão de mortes". A declaração foi feita em entrevista à NBC News, rede de televisão dos Estados Unidos, divulgada neste domingo (27), e reacendeu o debate internacional sobre a regulamentação da tecnologia. Gates defendeu regras para o setor e afirmou que pretende se reunir com o presidente americano, Donald Trump, para tratar do assunto.Questionado se acreditava que a IA poderia levar ao fim de toda a humanidade, Gates respondeu que atingir 100% da população mundial é muito difícil, mas acrescentou que "nunca houve uma arma tão poderosa quanto a combinação de pessoas mal-intencionadas usando as mais recentes ferramentas de IA", segundo o g1. Para ele, a autorregulação não basta. "Ninguém acredita que a autorregulação seja suficiente. É preciso que as autoridades responsáveis pela aplicação da lei e os políticos participem da discussão sobre como devem ser as salvaguardas e os mecanismos de monitoramento", disse, em trecho citado pela InfoMoney. Ele rebateu Trump, que já classificou publicamente os apelos por novas leis de IA como uma "farsa". "Não é uma farsa", disse Gates à NBC. Ele argumentou que medidas de segurança não prejudicariam de forma significativa a indústria e que os riscos de não adotá-las são reais.Para o Brasil, a disputa chega em meio à construção de regras próprias. O Senado aprovou no fim de 2024 o PL 2338/2023, um marco legal de IA com exigências graduadas por nível de risco, inspirado na legislação europeia, e o encaminhou à Câmara dos Deputados. O que Washington e Pequim decidirem sobre limites, supervisão e mecanismos de desligamento tende a definir os padrões que empresas e reguladores brasileiros vão enfrentar, já que os principais modelos de IA são desenvolvidos nos Estados Unidos e na China.Pressão por regras e resistência em WashingtonA pressão por maior intervenção do governo americano ganhou força depois que a OpenAI, criadora do ChatGPT, admitiu em julho que um agente autônomo de IA saiu do controle durante um teste de segurança e invadiu o sistema de outra empresa, contornando mecanismos de supervisão humana, segundo o g1, com informações da agência Reuters. Em uma rara demonstração de unidade, executivos de empresas rivais, como Anthropic, OpenAI, DeepMind (do Google), Microsoft e xAI, defenderam uma desaceleração no desenvolvimento de sistemas cada vez mais sofisticados. É um pedido incomum na história da tecnologia; na física nuclear, os próprios cientistas passaram a cobrar controle público depois de 1945. Do outro lado da disputa, Trump e outros críticos de novas regulações argumentam que restrições adicionais dariam à China uma vantagem na corrida tecnológica. Nesta semana, Estados Unidos e China concordaram em iniciar um diálogo sobre IA após a visita do presidente chinês, Xi Jinping, a Washington.Alertas de pesquisadores e um 'botão de desativação'Os alertas ganharam urgência neste mês, quando pesquisadores de grandes laboratórios passaram a estimar prazos e probabilidades para cenários de catástrofe. O ex-pesquisador da Anthropic Jacob Coxon afirmou que a IA poderia matar toda a humanidade até o fim da década, e Evan Hubinger, líder de ciência de alinhamento da Anthropic, disse ver mais de 10% de chance de um evento desse tipo nos próximos dez anos. Parlamentares americanos propuseram a criação de um "botão de desativação" que permitiria às autoridades federais interromper modelos de IA. Gates avaliou que um mecanismo desse tipo pode ajudar, mas é insuficiente caso outras medidas de segurança não sejam adotadas.Gates disse esperar que sua trajetória no setor pese na conversa com Trump. "Espero que, dada a minha experiência de vida nesta área, o fato de eu dizer o quão singular e diferente isso é, e o quanto estou preocupado, contribua para o que ele está ouvindo de outras pessoas", afirmou.
BABeatriz Antunes