A guerra iniciada em 28 de fevereiro com ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã completa seis meses nesta sexta-feira (28), sem um desfecho previsível no horizonte. O conflito, que envolveu 16 países segundo a Folha de S.Paulo, já redesenhou o equilíbrio de forças do Oriente Médio e espalhou seus efeitos pelos mercados de energia, alimentos e investimentos em todo o mundo, de acordo com levantamento do G1.
No centro do impasse está o Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no planeta. Teerã ainda controla a passagem, e a redução do tráfego na rota abalou o mercado energético global. Do lado americano, o presidente Donald Trump combina o discurso de desengajamento da região com uma intervenção militar de grande escala. O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, aliado de Washington nas primeiras semanas de combates, pressionava pela derrubada da teocracia iraniana. O regime, porém, sobreviveu à morte do líder supremo Ali Khamenei, substituído pelo filho, Mojtaba Khamenei, e manteve a capacidade de retaliar contra aliados dos Estados Unidos na região, segundo a Folha.
Para países como o Brasil, o choque chega sobretudo pela mesa. O estrangulamento de Ormuz afetou o comércio internacional de fertilizantes, insumo essencial para o agronegócio brasileiro, e somou-se aos efeitos do El Niño e às interrupções no transporte de grãos causadas pela guerra na Ucrânia. O resultado, segundo a Reuters, é que os preços globais dos alimentos atingiram em julho o maior nível em mais de três anos, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). O JPMorgan estima que um El Niño forte, mesmo sem a guerra, pode acrescentar cerca de 0,7 ponto percentual à inflação global dos alimentos no pico do impacto, que tende a ser maior na Ásia, na América Latina e na África, onde as famílias destinam uma parcela maior da renda à alimentação.
Petróleo em alta e refúgios em xeque
O petróleo Brent chegou a ultrapassar US$ 120 por barril em abril e acumula alta superior a 20% no ano, segundo a Folha. O diesel sofreu pressão adicional com os ataques ucranianos a refinarias russas, que reduziram a oferta no mercado internacional, enquanto o querosene de aviação teve o abastecimento aliviado pelo aumento da produção e das exportações das refinarias americanas, informa o G1. Com a aproximação do inverno no Hemisfério Norte, quando a demanda por energia cresce, novos problemas em Ormuz ou na infraestrutura energética russa podem voltar a pressionar combustíveis e inflação.
Apesar do choque de energia, as bolsas globais seguiram avançando. O valor das empresas do índice mundial de ações da MSCI, que reúne mercados de 47 países, atingiu neste mês o recorde de US$ 105 trilhões, alta de 9% desde o início da guerra, impulsionado pelos investimentos em inteligência artificial. Os ativos tradicionalmente vistos como refúgio, porém, tiveram comportamento irregular: o dólar acumula alta de cerca de 1,4% ante uma cesta das principais moedas, os títulos do governo americano perderam cerca de 3,5% e o ouro caiu quase 25% até julho, para depois subir mais de 15% somente neste mês.
Golfo paga a conta mais alta
Os países produtores de petróleo e gás do Golfo estão entre os mais afetados economicamente. As exportações da Arábia Saudita caíram 10% do primeiro para o segundo trimestre. No Catar, a Oxford Economics estima que a economia encolha quase 30% neste ano por causa dos danos ao complexo de gás de Ras Laffan. As bolsas do Catar e dos Emirados Árabes Unidos recuaram cerca de 14% no período, em sentido contrário ao mercado global, e as vendas de imóveis em Dubai caíram entre 70% e 80%, segundo estimativa do JPMorgan.
No campo diplomático, o cenário também é de paralisia. O prazo de 60 dias do Memorando de Entendimento entre Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra se aproxima do fim em meio a um impasse, segundo o G1. Na avaliação da Folha, o resultado militar até aqui foi limitado: as capacidades ofensivas iranianas foram degradadas, mas a campanha de retaliação contra aliados americanos não foi impedida, e o programa nuclear do país, apresentado como a principal justificativa para a guerra, continua uma incógnita.