arrow_backVoltar
public-safetyinternationalunited-statesdiplomacyorganized-crime

Governo é pego de surpresa por adesão do Escudo das Américas a sanções contra PCC e CV

bookmark_borderSalvar
BAPor Beatriz Antunes•23 de setembro de 2026•Fontes: Folha de S.Paulo, BBC News Brasil

A aliança Escudo das Américas, que reúne governos latino-americanos alinhados a Washington, emitiu nesta terça-feira (22) uma declaração conjunta aderindo à decisão dos Estados Unidos de designar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O comunicado foi divulgado à tarde, às margens da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em Nova York, após os discursos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump. O Brasil, que não integra o bloco, foi pego de surpresa: segundo a Folha de S.Paulo, a diplomacia brasileira desconhecia a possibilidade do documento e o governo ainda avalia seu conteúdo.

Segundo a BBC News Brasil, o bloco reúne 15 países liderados pelos EUA, com nações latino-americanas e caribenhas de governos de direita e centro-direita, e tem o combate ao crime organizado como eixo. O documento pede a convocação de uma reunião de ministros dos países membros da OEA (Organização dos Estados Americanos) e prevê medidas como congelamento de ativos, restrições de visto e responsabilização criminal de quem forneça apoio material aos grupos. Além do PCC e do CV, as duas maiores facções criminosas do país, mais de duas dezenas de organizações da região foram incluídas, entre elas a equatoriana Los Lobos.

O que muda para o Brasil

Para Brasília, a adesão dos vizinhos amplia uma pressão que já existia. Em maio, o governo Trump designou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, contrariando o governo Lula e atendendo a um pleito do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. Nos bastidores, parte do governo, ouvida sob reserva pela Folha, diz não se surpreender com a declaração e considera reduzidos os efeitos colaterais: cita o presidente argentino, Javier Milei, que já se referia a organizações do tipo como narcoterroristas, e fala em subserviência desses países a Washington. A preocupação existente, acrescenta essa ala, é o uso da força na região, algo que não depende do novo documento.

O tom do discurso de Trump na Assembleia Geral reforça essa leitura. O presidente americano defendeu a classificação de facções latino-americanas como terroristas, citou nominalmente os cartéis mexicanos e o grupo venezuelano Tren de Aragua e ameaçou usar o poder militar dos EUA na região, ao mencionar a operação que capturou o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro deste ano.

"Ao vencedor, o espólio. Vocês já ouviram falar que nossas ações na Venezuela são a prova que os Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem terreno em qualquer ponto do Hemisfério Ocidental. Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos Estados Unidos", disse Trump, segundo a BBC News Brasil.

Véspera de eleição

Lula respondeu no mesmo palco e afirmou, em seu discurso na ONU, que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém". Um auxiliar do presidente minimizou as menções de Trump à América Latina em conversa reservada com a BBC e disse não ver recados diretos ao Brasil: na avaliação dele, o americano apenas repetiu a retórica habitual sobre o Escudo das Américas. O desconforto, porém, vem de antes. Em junho, em pronunciamento ao Congresso americano, Marco Rubio incluiu o Brasil em um grupo de países não "amigáveis" aos EUA, ao lado de Cuba, Nicarágua e Venezuela.

A declaração chega a poucas semanas das eleições brasileiras, em um período de tensão entre Brasília e Washington. Para a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Carol Pedroso, o foco de Trump no crime organizado coloca o Brasil na berlinda, e o tema pode ser mobilizado na reta final da campanha. "O recado dado para a América Latina inevitavelmente também se aplica a nós, após a classificação do CV e PCC como organizações narcoterroristas", avaliou. A Folha avalia, ainda, que o episódio contraria as declarações de Lula do início do mandato, quando o presidente se apresentava como líder regional, num período em que os governos de esquerda se isolaram na região. A segurança pública, anota o jornal, ocupa papel central no debate.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro a comentar!

Faça login para comentar. Entrar