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Documento do governo Trump exigia liberar 'dissidentes políticos' na eleição de 2026

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BAPor Beatriz Antunes•17 de setembro de 2026•Fontes: Estadão, g1

O governo de Donald Trump exigiu por escrito que o Brasil garantisse uma eleição presidencial "livre e justa" em 2026 e que não detivesse, prendesse ou impedisse "arbitrariamente" a participação de "dissidentes políticos" na disputa. A exigência integra um documento com 21 demandas entregue a negociadores brasileiros em outubro de 2025, nas tratativas secretas que se seguiram ao tarifaço de 50% imposto pelo governo americano aos produtos brasileiros. A revelação é do jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira (17) e foi confirmada por fontes do Itamaraty à TV Globo.

Segundo o Estadão, o texto foi apresentado em 16 de outubro de 2025 a uma missão brasileira despachada a Washington e liderada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Foi a primeira proposta de acordo dos americanos depois do anúncio das tarifas, em julho de 2025, e o teor do documento era guardado em sigilo pelos dois governos até agora. Ao menos dois membros da comitiva receberam a proposta por e-mail, para discussão interna antes de qualquer tratamento em nível ministerial. A cláusula eleitoral dizia:

"O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral."

Para integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva ouvidos pelo Estadão, a exigência visava o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado em 2025 por tentativa de golpe e afastado da disputa deste ano, em que a direita brasileira compete com o filho dele, o senador Flávio Bolsonaro. Fontes do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores, disseram ao g1 que o Brasil rejeitou a proposta porque o texto continha "absurdos". O pedido nunca entrou na agenda de diálogo entre as duas chancelarias e circulou apenas no nível técnico: não chegou ao conhecimento de Vieira, do secretário de Estado americano, Marco Rubio, nem dos presidentes Trump e Lula, segundo as mesmas fontes.

A revelação chega a menos de três semanas do primeiro turno, com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já tendo barrado mais de 1,2 mil candidaturas nestas eleições, e reacende a discussão sobre ingerência estrangeira. O governo brasileiro já acusava Washington de interferência por causa do tarifaço, da designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, de sanções a autoridades brasileiras e da cassação de vistos diplomáticos, conforme o Estadão.

Sinais contraditórios em Washington

Procurados, o Departamento de Estado e o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos não responderam ao Estadão, e o governo americano não havia se manifestado publicamente até a última atualização da reportagem do g1. No mês passado, uma alta autoridade do Departamento de Estado afirmou, sob reserva, que os EUA respeitariam o resultado das urnas desde que o Brasil promovesse uma disputa "livre e justa". Já o embaixador americano indicado por Trump, Daniel Perez, cujo nome ainda não foi aprovado por Lula, negou que pretenda se envolver na eleição. "Quanto às eleições no Brasil, isso cabe aos brasileiros decidir, e quem quer que eles escolham como vencedor será a pessoa com quem trabalharei", disse ele a uma emissora de TV da Flórida.

Lula e Trump chegaram a se encontrar na Casa Branca em maio deste ano, segundo o g1. A exigência eleitoral, contudo, nunca integrou os pontos negociados entre os dois governos: para o Itamaraty, o assunto se encerrou quando o documento foi descartado por conter absurdos.

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